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Expresso

Amamentação: exibicionismo, erotismo e demais ideias idiotas

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Uma mulher dá de mamar ao seu bebé de poucos meses durante uma viagem de metro. A criança, que antes chorava com fome, cala-se ao ser alimentada. Um homem fica afrontado com tal visão e decide tirar um fotografia às escondidas, que acaba por publicar mais tarde nas redes sociais com a legenda: “Deixa-me lembrar-te de uma coisa: isto é uma carruagem de metro de Beijing, não é o autocarro da tua aldeia”.

A imagem publicada recentemente na Weibo (o equivalente ao Twitter) acabou por se tornar viral após ser republicada pela Beijing Tale, uma associação de voluntariado que ajuda na limpeza das estações de metro. A legenda da segunda publicação era ainda pior, com o voluntário que a partilhou a criticar a mulher por “expor os seus órgãos sexuais em público sem pudor”. Se isto parece, à partida, simplesmente absurdo, mais absurda foi a reação: centenas de pessoas alinharam na crítica à mulher, enxovalhando-a de tudo e mais alguma coisa por ter feito algo tão simples quanto ter dado de mamar ao seu bebé, que chorava com fome numa viagem de metro.

Um dos comentários mais idiotas – e reveladores - à imagem era: “Se eu vir as mamas de uma mulher à mostra é óbvio que vou ficar especado a olhar porque sou homem”. Comentário esse que conquistou várias centenas de “likes” de pessoas que concordavam, como se os homens, simplesmente por serem homens, não passassem de uma cambada de trogloditas com impulsos impossíveis de conter. Algo extremamente redutor e ofensivo para a larga maioria do mundo masculino que, quero acreditar, não alinhará nesta conversa.

A prova disso é que também houve um grande movimento contrário de pessoas que criticaram veementemente tanto o primeiro homem como a associação, não só por terem exposto a cara da mulher e da criança nas redes sociais sem pedirem autorização, como também por a terem sujeitado a tal escrutínio público. O utilizador que colocou a foto acabou por apagá-la, tal como a associação, que fez inclusive um pedido de desculpa público pela partilha e comentário inapropriados. Mas o debate sobre a amamentação em público ficou em cima de mesa, como sempre, com opiniões muito divididas. E a pender claramente para aqueles que acham que é quase um convite sexual uma mulher pôr uma mama de fora em público para alimentar um filho.

As brelfies, a provocação e a censura

Podíamos achar que isto já só acontece na China e que por cá ninguém ainda cairia no erro absurdo de sugerir que existe cariz sexual em algo tão básico como dar de mamar a um bebé. Que as reações seriam diferentes. Mas histórias vindas de diferentes pontos do mundo ocidental nos últimos meses têm mostrado que isto não é bem assim e que o preconceito em relação à amamentação ainda é mais que muito. Lembram-se, por exemplo, das críticas que o próprio Papa Francisco recebeu por ter incentivada a amamentação em público durante um batismo coletivo na Capela Sistina, para evitar que as crianças chorassem?

Há uns tempos até vos falei aqui da moda das brelfies, fotos que estavam a ser partilhadas em massa nas redes sociais como forma de provocação à censura e ao pensamento retrógrada que põe a amamentação em público no patamar do exibicionismo. Haja dó. Numa altura em que imagens do corpo desnudo da mulher - mamas semi ao léu incluídas - servem para publicitar tudo e mais alguma coisa, parece-me no mínimo hipócrita que alguém possa ficar com a susceptibilidade ferida ao ver uma mãe a dar de mamar num centro comercial. Sem alguém se sentir incomodado com isso basta não olhar.

Tal como tinha dito aqui há uns meses sobre este tema, eu ainda não sou mãe. Mas tenha eu a sorte de ter leite quando o for e tenciono pôr as minhas de fora sempre que o meu bebé tiver fome. Num sítio confortável para ambos e não às escondidas numa casa-de-banho pública para não ferir susceptibilidades. Não o farei orgulhosamente, mas sim naturalmente. Porque haverá algo mais natural na existência humana do que o ato de sobrevivência que é uma fêmea amamentar a sua cria?

É simplesmente triste e ridículo que isto ainda seja motivo de discussão.