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Expresso

Homem é despedido por ter insultado uma mulher no Facebook

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Imaginemos que estamos, por exemplo, numa conferencia e que uma das oradoras partilha uma história sobre discriminação de género. Na plateia, vários homens começam a gritar coisas como “és uma puta”, “cala-te vaca feminazi” ou “alguém mata esta gaja?”. O mais certo era os restantes presentes ficarem chocados, indignados e provavelmente até a chamarem a polícia. Tais comportamentos são impensáveis em sociedade e, obviamente, condenáveis. Então por que é que quando isto acontece nas redes sociais as mulheres acabam por ouvir recorrentemente frases como “deixa lá, não ligues” ou “tens de aprender a ignorar”?

Clementine Ford é uma escritora, jornalista e colunista australiana, que se dedica há vários anos a abordar temas relacionados com o mundo feminino. Nos seus perfis profissionais de Facebook e de Twitter (onde tem mais de 80 mil seguidores) foi-se habituando à presença constante de comentários agressivos – grande parte em tom de insulto ou ameaça - de leitores que não concordam com os temas que partilha. Reportar aos gestores dessas páginas os comentários abusivos tornou-se infrutífero. E “deixa lá, não ligues” era precisamente aquilo que lhe diziam quando se queixava do constante desrespeito de que era alvo nas redes sociais. Até que um dia se fartou e decidiu usar as redes sociais para dar uma merecida resposta. O que aconteceu a seguir é que ninguém imaginava.

Justiça online?

Quando partilhou no Facebook um conteúdo sobre um caso de misoginia, um dos seus seguidores deixou o seguinte comentário: “sua puta”. Farta deste tipo de abordagem, Clementine decidiu dar-se ao trabalho de entrar no perfil do homem e tentar perceber quem ele era. Lá, ele dizia publicamente que era supervisor na empresa Meriton Apartments. E entre as suas fotos e links partilhados não faltavam conteúdos racistas e de desdém em relação aos emigrantes. Clementine decidiu fazer uma cópia desses conteúdos e da foto de perfil do homem que lhe tinha chamado “puta” (já agora, a mesma foto de perfil que acompanha o comentário deixado deliberadamente por ele) por dá cá aquele palha e partilhou essas imagens no seu perfil. Num texto onde não utiliza uma única palavra desrespeitosa, pergunta: “Será que os donos da Meriton Apartments têm consciência de que um dos seus supervisores gosta de chamar puta a mulheres em comentários de Facebook?”. No nome da empresa fez uma simples hiperligação para o perfil de Facebook da mesma, como nós fazemos diariamente ao usar esta rede social.

Pouco tempo depois foi informada pela própria empresa de que tinha sido aberto um inquérito a Michael Nolan, que acabara por ser despedido, uma vez que o grupo “não aprova este tipo de comportamento”. A pedido da mesma, a mensagem enviada pela empresa foi partilhada por Clementine no seu Facebook. Muita pessoas felicitaram tanto a escritora como a empresa por tomar tal atitude, uma vez que alguém que tem este tipo de comportamento ofensivo publicamente na web, muito possivelmente também o poderá ter na sua vida profissional. Por outro lado, em poucas horas Clementine foi inundada por mensagens furiosas de pessoas que a acusam de ter “arruinado a vida de um pobre homem” que “apenas lhe chamou puta” nas redes sociais. Os comentários inacreditáveis que tem recebido nas últimas 24 horas foram partilhados neste blogue para que todos possam ter noção do tipo de verborreia e agressividade que circula na web.

É importante perceber que, tal como a própria Clementine Ford explicou num texto publicado no site do Daily Life , ninguém forçou Michael Nolan a chamar-lhe publicamente “puta” como resposta a um artigo sobre misoginia. Ele é o único responsável pelas palavras que escolhe usar quando se dirige a alguém. Tal como não foi ela que o obrigou a partilhar publicamente o sítio onde trabalhava, nem muito menos os conteúdos racista que o próprio deixa no seu perfil de Facebook. Clementine nem sequer escreveu uma queixa formal à empresa, simplesmente fez uma hiperligação para o perfil da mesma. Tal como não obrigou, nem muito menos pediu, à tal empresa que despedisse o empregado. Apenas deixou um alerta online para o comportamento público daquele homem. Comportamento esse, que o próprio escolheu ter dentro do seu livre arbítrio, também convém lembrar. E a decisão de o despedir foi da empresa e é ele que deve ser questionada. Se já tinham motivos anteriores ou não, até agora não se sabe, mas o facto de este homem insultar mulheres publicamente foi o rastilho final.

O mundo online precisa de regras urgentes

Numa altura em que o debate sobre os limites do mundo online a e necessidade urgente de regras para definir, por exemplo, as fronteiras entre o incitamento à violência e a liberdade de expressão, este caso é bastante curioso. Vivemos numa era que muita gente continua a achar que a impunidade é lei quando estão atrás de um computador. Como se nunca viessem a ter repercussões na sua “vida real” pelo comportamentos que têm online. Mas talvez isso esteja a mudar. E ainda bem que assim é, principalmente num país como a Austrália, onde a violência contra as mulheres é apontada pelo próprio governo como “a vergonha nacional do país”.

É óbvio que ninguém fica contente por um homem ter ficado sem emprego. Mas também deveria ser óbvio que insultar e ameaçar uma pessoa nas redes sociais também não é aceitável. E as mulheres são alvos fáceis e recorrentes deste tipo de abuso online. Talvez Michael Nolan, de 22 anos, comece a pensar duas vezes antes de insultar uma mulher. Mas olhando pelos comentários que Clementine tem recebido nas últimas horas, talvez a mensagem sobre os limites e as consequência não tenha passado.

Partilho convosco a explicação de Clementine para esta situação: “Estou farta de ver as mulheres serem responsabilizadas pelas atitudes dos homens. Não reportem os abusos porque isso pode ter consequências nefastas na vida, carreira e reputação deles. Pensem na família dele. E os empregados dele? Por que é que lhe estás a fazer isso? Não é justo. Por que é que não podes simplesmente engolir o sapo e levar este comportamento misógino e abusivo dos homens como um direito à liberdade de expressão? Por que é que te tens de queixar? Por que é que tens de ser uma cabra em relação a isto?”, escreve Clementine Ford. “As mulheres toleram este tipo de abuso há demasiado tempo. Mas nesse vasto oceano de lágrimas masculinas, a corrente parece que está a mudar. Apanhem o barco ou afoguem-se”.