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Expresso

Se pudesse voltar atrás, o que é que faria diferente?

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Se têm seguido o canal #100women do site da BBC – que está a trabalhar nas histórias de 100 mulheres inspiradores de todo o mundo - , já se devem ter cruzado com os relatos de algumas octogenárias que foram escolhidas por aquele jornal para dar conselhos sobre a vida. Esses relatos relembraram-me de uma campanha que há cerca de um mês e meio circulou insistentemente nas redes sociais e que não cheguei a partilhar convosco. Sem música dramática de fundo nem legendas de fazer chorar as pedras da calçada, cinco mulheres de terceira idade falam sem rodeios sobre aquilo que fariam se fossem novas outra vez. E com a sabedoria de quem passou por gerações que queimaram soutiens na rua e viram a sua igualdade de direitos ganhar forma lentamente, vão diretas ao que realmente é mais importante. E o que é mais importante dá mesmo muito que pensar.

“Se eu pudesse voltar atrás no tempo não teria uma lista de coisas para fazer. Teria, sim, uma lista de coisas a não fazer”, diz uma delas. “Acreditem, se fosse nova passava mais tempo a ‘ser’ do que a ‘fazer’ ”, diz outra, que acrescenta ainda que não voltava a desperdiçar “aqueles cinco minutos na pista de dança enquanto a pernas ainda têm força para isso”. Todas elas falam das pressões a que as mulheres da nossa sociedade têm sido sujeitas ao longo das últimas décadas e das expectativas irreais criadas em torno de uma suposta figura feminina ideal que consegue sempre desdobrar-se em todas as frentes, sem ir abaixo.

Claro que esta mensagem passada no vídeo tem um cariz totalmente publicitário, mas há que louvar o spa inglês que optou por falar das questões reais que assombram muitas das mulheres ao longo dos anos, em vez de cair no cliché da figura semi-nua estendida numa marquesa a receber uma massagem com ar sensual para vender os seus serviços (seria mais honesto se retratassem alguém com ar de quem está prestes a adormecer com um fio de baba a querer cair... mas a realidade tem sempre menos glamour no que toca à imagem das mulheres, certo?).

40% das britânicas sentem-se à beira de um burn-out

Voltando à iniciativa: o spa londrino decidiu ir mais longe e, para fazer a tal campanha, levou a cabo um inquérito às mulheres britânicas, que durou meses e contou com mais de mil entrevistas. Os resultados espelham uma realidade que a mim não me espanta: 43% das mulheres diziam que as suas listas diárias de obrigações eram incomportáveis, chegando a ter mais de 25 tarefas por dia nas quais não podiam falhar; 62% das inquiridas sentiam que nunca tinha tempo para si mesmas, o que as fazia sentirem-se reféns das próprias vidas; sete em cada dez mulheres sentiam-se pressionadas a serem melhores; 88% acreditavam que hoje em dia há demasiadas pressões provocadas pelos media para que as mulheres atinjam um patamar de perfeição irreal; mais de 40% destas mulheres sentiam-se à beira de um burn-out.

O discurso das mulheres deste vídeo é baseado nestes dados e nas suas experiências de vida. Relembrando algo que habitualmente vemos como um desinteressante senso comum, e que raramente levamos a sério: ser uma mulher bem sucedida não significa ter de ser uma super mulher.

Trinta minutos por dia, nem sabe o bem que lhe fazia

Na página oficial da campanha encontram ainda uma lista de dicas escrita pela jamaicana Jenni Trent Hughes, estrela da TV e da rádio no que diz respeito a conversa motivacional. Por mais que muitas vezes não me reveja neste tipo de discurso cheio de frases feitas, Hughes faz uma pergunta que merece reflexão, de tão simples que é: “há quanto tempo é que não fecha a porta da casa de banho e se permite a tomar um banho de imersão sem interrupções?” Eu falo por mim: já lá vai mais de um ano (que miséria).

Diz a especialista que se tirarmos uma parte do dia para nós próprios parece uma tarefa impossível, então não há nada como começar por experimentar desligar o telefone apenas durante meia hora. Eu sei que é difícil de acreditar, mas é altamente improvável que haja uma hecatombe durante esses 30 minutos de desconexão ao mundo virtual... A sugestão é aproveitar esse tempo para fazer algo que dê prazer (e entretanto deixar de parte os banhos dos miúdos ou aquele email de trabalho que ainda está por responder), seja a ler uma revista, a ver televisão, a fazer croché, a olhar pela janela, a meditar. Sem nunca esquecermos que “tempo passado a não fazer nada não é tempo perdido”. As pernas – e o cérebro – vão agradecer quando se depararem com os tais 5 minutos extra na pista de dança.