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Expresso

Pirelli 2016: a pornificação da mulher está a mudar?

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A fotógrafa Annie Leibovitz e o CEO da Pirelli Tronchetti Provera no lançamento do calendário Pirelli 2016

FOTOS © NEIL HALL / REUTERS

Muito me tenho eu deliciado a ler as discussões acesas nas caixas de comentários de jornais um pouco por todo o mundo, em reação à apresentação do Calendário Pirelli 2016. Pela mão da consagrada Annie Leibovitz, o calendário volta a pôr as modelos nuas de lado e aposta na sensualidade dos corpos vestidos... Mas não só.

O ponto de partida deixou de ser as modelos com medidas perfeitas para passarem a ser simplesmente mulheres inspiradoras, de diferentes idades, que alcançaram algo importante. Modelos incluídas, é certo, mas alargando o espectro para mulheres de áreas como desporto, arte, trabalho humanitário ou literatura. Todas elas pouco convencionais dentro do seu próprio universo, mas aqui retratadas tal qual como são na vida real. Praticamente sem retoques de Photoshop, nem produções fotográficas e de moda milionárias: são elas como gostam de se ver, “sem pretensões”.

Algumas mais sérias, outras mais provocadoras, como a fantástica comediante Amy Schumer que escolher ser fotografada só de cuecas e sapatos altos. Ficámos a saber que, por exemplo, esta comediante não tem uma barriga lisinha. Ou que Serena Williams tem umas pernas mais grossas e musculadas do que muitos homens. Mas é isso que as torna mulheres menos sensuais? Se percorrermos os comentários deixados na Web pelos milhões de internautas que esta noite disseminaram o tema em fóruns, é fácil perceber que não há consenso. E ainda bem que assim é. Quando se discute veementemente um tema, isso augura tempos de mudança.

Não faltam comentários de - principalmente – homens indignados que garantem que não há nada de sexy em mulheres vestidas. Por outro lado, há muita gente que bate palmas e diz que a inteligência e o carisma são mais sexy do que um corpo desnudo. Eu concordo, mas não quero com isso dizer que esta deve ser a regra. Aliás, quando falamos da percepção da sensualidade, nunca podemos esquecer que esta é totalmente individual. O que me estimula a mim não é igual certamente ao que estimula o vizinho do lado. Daí ser tão interessante que comecem a surgir provocações como esta apresentada este ano pela Pirelli.

Tavi Gevinson

Tavi Gevinson

FOTOS © NEIL HALL / REUTERS

 Yao Chen

Yao Chen

FOTOS © NEIL HALL / REUTERS

Acreditar que só as modelos são sexy é redutor para 98% da humanidade

Acabar com ideias pré-concebidas quando falamos de sensualidade é urgente. E isso não significa, de todo, que este seja um calendário feminista, como muitos têm apregoado ao ver mulheres vestidas em vez de nuas. Nos tempos que correm, este parece ser o argumento mais forte que muita gente tem para dar quando confrontados com esta constatação: a percepção da imagem da mulher está a mudar.

Tal como em tantas outras coisas da vida, não há uma regra três simples para a sensualidade e o erotismo. Por mais que a pornificação da imagem feminina através dos media, publicidade e cultura pop, por exemplo, nos tenham feito acreditar que sim ao longo das últimas décadas. Não é sequer inteligente acreditar que não há mulheres sexy para lá do universo das modelos, seria aliás altamente redutor para uns 98% da humanidade. Estas são imagens que celebram precisamente a diversidade, num género de homenagem ao lado mais sensual das mulheres que amamos, e não apenas daquelas que sexualizamos numa imagem sem alma. Modelos incluídas nas tais ‘mulheres reais’, volto a frisar.

Dez pontos para a marca italiana, que provavelmente nunca com corpos nus conseguiu atrair tanto mediatismo para um calendário em tão pouco tempo. Inverter as regras do jogo – que, já agora, não é a primeira vez que acontece – e trocar o cliché das modelos nuas por mulheres vestidas foi um tiro certeiro. Mas, tenhamos noção disto, um tiro nada ingénuo: a discussão em torno da excessiva objetificação da mulher está acesa há já alguns meses e este calendário só podia sair vencedor. Mesmo que deixe de estar nas paredes da oficinas e passe a estar nas paredes em qualquer escritório ou casa familiar.