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Expresso

Boxe para mulheres no Paquistão? Sim, já existe

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FOTO SITWAT RIZVI / NYT

Honrar os pais, melhorar a condição física, quebrar tradições patriarcais, ser uma estrela internacional. São várias as motivações das meninas e adolescentes que fazem parte do primeiro clube de boxe feminino do Paquistão. A história, que foi recentemente divulgada pelo New York Times, está correr mundo e as pugilistas de Sindh não podiam estar mais orgulhosas. De cabelo em trança e vestidas com saris coloridos enquanto deu murros no ar, já são mais de dez as aspirantes a pugilistas que fazem tudo por tudo para mostrar que este desporto não deve ser só para eles. Por trás, um homem torna tudo isto possível.

Há uns tempos contei-vos a história de PetJee Jaa, a menina prodígio do muay thai que tem sido um símbolo internacional da luta contra a discriminação de género no desporto, na Tailândia. Agora, quem está a dar que falar são estas pugilistas paquistanesas. Tudo começou quando uma menina de 16 anos decidiu quebrar as convenções culturais do seu país e dirigir-se à Associação de Boxe de Sindh para fazer um pedido especial ao pugilista campeão daquela província do Paquistão: que a ensinasse a lutar boxe. O não era garantido. Nadir Kachi achou piada à determinação da rapariga e acedeu, até porque dentro da sua própria casa tinha duas filhas que já lhe tinham feito o mesmo pedido. Se ensinava a suas meninas desde pequenas, porque não juntar mais uma aos treinos que lhes dava em casa?

Com a devida autorização do pai, a aspirante a pugilista começou a ser treinada. Mas não demorou muito até que outras meninas batessem às porta de Nadir Kachi a fazer o mesmo pedido. Todas queriam aprender a lutar boxe, mas nenhuma encontrava um clube disposto a recebê-las. Nem muito menos existe qualquer tipo de competição feminina da modalidade no país, como há em tantos outros mundo fora. Porquê? Para Nadir a resposta é óbvia: “Estamos na República Islâmica do Paquistão.”

Proteger as meninas do assédio masculino é regra. Ir à escola também

Modalidades como hóquei, críquete ou ténis são atividades onde mulheres também não entram no Paquistão. Algo que só irá mudar quando alguém, como Nadir Kachi, decidir fazer alguma coisa nesses sentido. No caso deste clube de boxe feminino, foi preciso muito bom-senso para conseguir salvaguardar as meninas de serem alvo não só de críticas alheias, mas também de violência por parte de rapazes despeitados pela intrusão feminina num universo, à partida, exclusivamente masculino.

Situações de assédio e de violência, como as que aconteceram recentemente em Karachi, onde várias estudantes universitárias foram atacadas por um grupo de rapazes por estarem a fazer algo tão simples como jogar críquete, é algo que Nadir quer evitar a todo o custo. Por isso, tudo foi pensado ao pormenor. A sala de treino é fechada aos olhares indiscretos masculinos e não existem balneários, as trocas de roupa são feitas em casa. Não há problemas em usarem véu enquanto treinam e a regra é clara: se querem fazer parte do clube têm de estudar. O boxe não pode interferir com a escola. Para sensibilizar quem tem dúvidas quanto a deixar uma filha praticar desporto, tanto em entrevistas como em conversas que vai tendo no seu bairro, não se cansa de dizer: “Nas nossas famílias as mulheres deixam a casa dos pais apenas quando casam e é para irem para a casa de outra família onde não fazem mais nada senão trabalhar a esfregar o chão, a cozinhar e a manter a casa limpa. É mesmo isso que queremos para as nossas meninas? Que sejam eternas empregadas? Porque não deixá-las vir para cá treinar e fazer algo mais com as suas vidas?”.

Aos poucas, as raparigas foram perdendo a vergonha e hoje já se exibem frente às câmaras sem problemas, como fizeram na visita do NYT. Para Nadir, treinar a autoconfiança de cada uma delas é um objetivo primordial, mas não põe de todo de parte a hipótese de as levar a competir pelo país fora. E, quem sabe, internacionalmente. Se inicialmente muitos dos seus amigos e familiares lhe diziam que a ideia era louca, depois de verem as miúdas a lutar perceberam que o que se está a fazer ali é a sério. Não é só uma questão de desporto, trata-se de mudar a vida daquelas jovens. E há cada vez mais pessoas a apoiarem o projeto e a darem permissão às suas filhas para se juntarem.

Pequenos grandes passos num país que é considerado um dos mais perigosos para uma mulher viver. Pode parecer pouco, mas é assim que a mudança acontece.