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Expresso

Mulheres, acordem: todas nós somos sexistas

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Nos últimos dias, diretamente do Brasil, começaram a surgir no Facebook e no Twitter uma série de frases que começam pela hashtag #meuamigosecreto. Ninguém sabe ao certo como começou, mas a verdade é que este movimento online ganhou proporções gigantes e há milhares de mulheres a publicarem nos seus perfis destas redes sociais frases que denunciam práticas comportamentos machistas vividos no seu dia a dia. Alguns de forma irada, outras de forma sarcásticas, uma a uma as mulheres (e também alguns homens) foram contando publicamente as situações pelas quais já passaram.

Depois da hashatag #meuprimeiroassedio – que surgiu na sequência do assédio à concorrente de 12 anos do Master Chef Junior e que gerou mais 82 mil relatos online de abusos – chegou agora a vez deste movimento. Que mais uma vez não pretende denunciar nomes, mas sim ser uma ferramenta de consciencialização para os grandes e pequenos machismos do dia-a-dia. Alguns deles eternamente camuflados pela nossa percepção da normalidade, e consequentemente aceites por todos nós. Sejam homens, sejam mulheres.

Acho que para muitas das mulheres que perderem um bocadinho de tempo a ler estes relatos, as frases replicadas não serão novidade. Estamos realmente habituadas a ter uma série de rótulos em cima, desde o suposto histerismo (esganiçado?), à falta capacidade para saber liderar uma equipa, à questão de que as tarefas domésticas são nossa responsabilidade (e se não as fizermos somos más esposas) ou até mesmo ao cliché da inabilidade para conduzir um automóvel. O que é grave nisto tudo é que #omeuamigosecreto muitas vezes somos nós próprias. E é nesse sentido que este movimento nos deveria pôr todas a pensar.

Todas as mulheres já foram o tal #meuamigosecreto

Quem nunca foi um #omeuamigosecreto que atire a primeira pedra. Não estou com isto a desculpar tais comportamentos, bem pelo contrário. Mas é preciso também saber fazer uma autoanálise e perceber que o facto de sermos mulheres não nos torna imunes ao sexismo. Em algum momento da vida (regra geral, em muitos) qualquer uma de nós já teve comportamentos machistas. Desde os tempos de escola em se fazia bullying à “miúda badocha” ou à “galdéria que anda com todos”, até à fase adulta em que não conseguimos conter comentários do género “que bardajona” quando olhamos, por exemplo, para uma mulher com decote avantajado ou um micro biquíni na praia.

Somos machistas quando dizemos frases como “ele ajuda-me com as tarefas domésticas” ou quando evitamos engravidar se mudarmos de emprego ou formos promovidas, como se a maternidade nos tornasse menos profissionais. Somos machistas quando permitimos comportamentos abusivos no contexto laboral (salários menores que os dos homens, por exemplo) e também dentro de uma relação (coisas como deixar de sair com as amigas porque ele fica com ciúmes ou deixar de usar a a roupa que gostamos, são exemplos de abuso bem comuns). Tal como somos sexistas quando, enquanto mães, achamos que há comportamentos permitidos a meninos, mas que não podem ser feitos por meninas. Ou quando incitamos uma filha a participar nas lides domésticas, mas os filhos ficam isentos das mesmas.

Somos sexistas ao continuarmos a achar que um adolescente que inicie a vida sexual cedo é um garanhão, enquanto que as miúdas já são “umas oferecidas” se o fizerem. Tal como o somos quando até compreendemos que um homem possa dar uma facadinha no casamento porque “a mulher não lhe dá o que ele precisa”. Se for uma mulher a trair, muitas de nós serão certamente mais críticas a fazer juízos de valor. Somos machistas quando não vamos para a cama com alguém num primeiro encontro, quando até temos vontade, mas achamos “que não fica bem” fazê-lo. Até quando uma mulher ri alto, bebe uns copos ou diz palavrões somos muitas vezes nós, mulheres, as primeiras a olhar de lado e a reprovar o comportamento.

Mesmo quando até passamos muito tempo a ler sobre feminismo e a tentar desconstruir a discriminação de género, há um momento em que vamos lá parar. O sexismo é fácil, recorrente e está enraizado em todos nós. É tempo de o assumirmos. E de tentarmos não o perpetuar. As coisas que parecem insignificantes para uns, podem ser verdadeiras feridas abertas para outros. Neste casos, outras.