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Expresso

O machismo mata. O silêncio também

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Participantes da 5.ª Marcha pelo Fim da Violência Contra as Mulheres no âmbito do dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, ontem, em Lisboa

MáRIO CRUZ/Lusa

O machismo mata”. Esta foi uma das várias frases que ontem ecoaram pelas ruas da Baixa de Lisboa, durante a Marcha para a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra as Mulheres. Foram muitas as pessoas – mulheres e homens – que fizeram parte desse momento, num evento que marcou definitivamente em Portugal o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um dia que foi assinalado em 140 outros países e cujas ações deverão prolongar-se em dezembro. É inegável: o machismo mata. Tal como o perpetuar do silêncio.

Se há uns anos era poucas as mulheres que ousavam sair da sombra da vergonha e do medo causados pela violência vivida em segredo, é muito bom ver que este tema começa a deixar de ser tabu. E que há já muitas vozes dispostas não só a consciencializar os demais para este drama recorrente, como também a denunciar os abusos. Mas o caminho é longo e ainda há mesmo muito a fazer, principalmente no que toca à mudança de mentalidades (começando nas próprias mulheres) e na proteção das vítimas.

Para quem não sabe, o 25 de Novembro está relacionado com uma homenagem às irmãs Mirabal, que foram torturadas, violadas e assassinadas em 1960, a mando do ditador da República Dominicana, Rafael Trujillo. A ideia de instituir um Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres surgiu no início dos anos 80 e foi formalmente aasumido pelas Nações Unidas há 16 anos. E embora as décadas vão passando, ele continua a ser essencial. Num mundo ideal isto não deveria fazer sentido. Mas repito aquilo que escrevi aqui em Março, aquando da celebração do Dia Internacional da Mulher: estamos longe de estar nesse mundo. Aliás, estamos ainda longe de chegar à sociedade ideal, mesmo nos países supostamente civilizados.

Sabe quantas mulheres já morreram em Portugal este ano vítimas de violência doméstica?

Repito: enquanto ainda existirem Sakinehs que podem ser apedrejadas até à morte por supostos adultérios confessados sob tortura é peremptório termos um o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Ou enquanto existirem Feng Jianmeis a quem arrancam um filho do ventre aos sete meses de gravidez por não ter dinheiro para pagar uma multa. Ou estudantes que são violadas até à morte em autocarros da Índia e cujos violadores continuam a achar que tiveram motivos para o fazer. Ou casamentos forçados de adolescentes a quem não é permitido o amor, ou excisões a meninas como forma de purificação ou tráfico de mulheres para redes de prostituição e demais atrocidades, como a escravatura. E também enquanto existirem estrelas de Hollywood a serem ameaçadas de divulgação de fotos suas privadas em redes sociais como represália a discursos públicos sobre os direitos das mulheres, ou enquanto mulheres sejam discriminadas em contexto laboral, ora com salários quase 25% mais baixos do que os dos homens, ora com discriminação relacionada à questão da maternidade.

Infelizmente, esta lista de exemplos claros de abusos, que têm como ponto de partida a discriminação de género, podia ser mais extensa. Tão, mas tão mais extensa. Em Portugal, por exemplo, 85% das vítimas de violência doméstica são mulheres. Os últimos dados do Observatório das Mulheres Assassinadas da UMAR prevê que o total das 43 mortes resultantes destas situações, em 2014, seja ultrapassado em 2015. Uma tendência crescente nos últimos três anos. Em outubro, a GNR apontava que até ao momento 40 mulheres já tinham morrido este ano e a UMAR completa os números negros, revelando que pelo menos outras 33 foram vítimas de tentativa de homicídio.

É certo que até hoje já foi percorrido um longo caminho no que diz respeito à igualdade de género. Mas ainda falta percorrer outro caminho tão, ou mais longo ainda. Felizmente, por cá já vamos tendo cada vez mais voz para falar, gritar ao mundo o que se passa. Haja coragem e, em muitos casos, meios e apoio a tempo e horas. Principalmente o das autoridades competentes. Mas ainda há muitas mulheres mundo fora às quais não é sequer permitida a palavra 'não'. Se por nós ainda faz sentido a existência deste dia, por elas é essencial que ele continue a existir. Tal como escrevi em Março: Quem me dera que não fizesse.