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Expresso

Mia, a violinista que é “um íman de pervertidos”

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“Que mulher maravilha, adorava violar-te!” “Mia, quero casar contigo. Por favor, adiciona-me. Prometo que não te vou perseguir!”. “Posso lamber os teus sapatos? Tu és fantástica, seria uma honra”. “Olá giraça! Vi o teu perfil e gostei. Já alguma vez experimentaste um latino?”. “Hey minha puta asiática, queres levar com ele? Sei onde vives”. Estas são apenas algumas da frases que a violinista Mia Matsumiya recebeu na sua caixa de correio electrónico ao longo dos últimos dez anos, em resposta aos textos e fotografias que partilhava num blogue onde contava os seus passos de jovem artista em Nova Iorque. Uma década depois - já com ameaças de morte online na bagagem e falta de ação policial que a levasse a sério - decidiu partilhar com o mundo o tipo de assédio e violência virtual a que tem sido sujeita. Algo que Mia acredita ser o dia a dia de muitas outras mulheres.

Entre 2003 e 2010 Mia foi violinista numa banda de rock. Entre o seu blog e o seu perfil no MySpace, começou a ser seguida por milhares de internautas. O facto de ser jovem e asiática revelou-se, desde logo, como um género de turn on para as fantasias mais secretas de muitos dos homens que a seguiam. Mas o que Mia não esperava era que esse fetiche se acabasse por traduzir em mensagens tão “desumanas, degradantes e nojentas”. A tal ponto que a violinista chegou mesmo a criar um pasta no seu computador intitulada “creepiness”.

Ao fim de alguns anos de mensagens diárias deste género, recebeu uma ameaça de morte. Dirigiu-se à polícia em busca de ajuda mas a única coisas que conseguiu foi ouvir a frase: “acabe com esse blogue e desligue o computador”. À falta de melhor, foi o que Mia fez. Terminou com o blogue, mas as mensagens continuaram a cada novo perfil que fazia em redes sociais.

Ao fim de dez anos fartou-se de manter em segredo o bullying online a que estava sujeita e criou uma página no Instagram onde agora revela publicamente as mensagens que foi recebendo desde 2005. Sarcasticamente chamou-lhe “ Perv Magnet”. Em poucas semanas alcançou mais de 74 mil seguidores, entre eles inúmeras mulheres que lhe revelaram que também são constantemente assediadas virtualmente. Conforme a página foi ganhando visibilidade, começou também a receber mensagens de homens que se desfaziam em desculpas e lhe pediam para que não publicasse aquilo que um dia lhe tinham escrito.

A legitimidade, o anonimato e a impunidade

Em alguns casos, Mia acedeu e tapou as caras e nomes dos homens ao publicar as cópias das mensagens que lhe tinham sido dirigidas. Até porque o seu intuito não é simplesmente criar uma onda de justiça popular, mas sim “mostrar ao mundo a as coisas inaceitáveis, horríveis e doentes que as mulheres recebem no universo online”. “Ninguém merece ser tratado desta forma, nem eu nem nenhuma outra mulher”, diz Mia. Tal como ninguém deveria sentir legitimidade para o fazer só porque está protegido pelo anonimato desta grande malha que é o mundo virtual, digo eu.

Ainda há uns tempos, aqui neste mesmo blogue sobre o mundo feminino, nos comentários deixados por seguidores do jornal nas redes sociais, li coisas como “esta gaja é uma vaca esganiçada”, “espero que nunca consigas ter filhos” ou “esta tipa está precisar de levar com ele”. Comentários levianos, deixados sem qualquer pudor, feitos por pessoas que têm um perfil de Facebook público, assinado com o seu próprio nome. Como se a impunidade online lhes desse todo o espaço para poderem ultrapassar todas as fronteiras do civismo, da boa edução e, acima de tudo, do respeito. Se isto acontece naquilo que podemos chamar de praça pública da Web, imaginemos o que pode acontecer em mensagens mais privadas. Mia Matsumiya é só um exemplo disso.