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Expresso

Beber chá e tirar selfies pode ser uma forma de rebelião? Sim

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Imaginemos que algo tão simples quanto ir beber um café com amigas numa esplanada de rua e tirar uma selfie em grupo para partilhar nas redes sociais era uma forma de rebelião contra a discriminação de género. Para muitos de nós – acredito que para todos – isto não faz qualquer sentido. Selfies, cafés com amigas e tardes de esplanada são coisas que fazemos sem sequer ter pensar. Mas no Paquistão não é assim. E é por isso que um grupo de jovens mulheres decidiu desafiar as convenções de um país que é considerado um dos mais perigosos para uma mulher viver.

Se fizerem uma pesquisa no Instagram ou no Twitter com a hashtag #girlsatdhabas vão perceber que desde há uns meses começou a surgir um movimento discreto, mas forte, que promove este quebrar de tradições patriarcais em Karachi. As primeiras vezes que ousaram sentar-se numa dhaba com amigas – uma dhaba é um género de cafezinho de rua que vende chai e petiscos como frango frito – estas mulheres tremiam por dentro. Estar numa esplanada de rua é algo exclusivo do mundo masculino e uma mulher que o faça pode ser mal interpretada, assediada ou insultada. Sentaram-me, pediram chai e, embora tivessem sido alvo de alguns olhares surpreendidos, perceberam que ninguém lhe ia fazer mal. Tiraram selfies, puseram nas redes sociais e suspiraram de alívio. Missão cumprida. Repetidamente foram bebendo chai noutras dhabas da sua cidade e o movimento ganhou expressão. Outras mulheres juntaram-se à iniciativa e começaram a partilhar tamanha “ousadia” com a hashtag #girlsatdhabas.

Depois do chai, “atividades escandalosas” como conduzir uma mota ou jogar críquete

Depois das esplanadas seguiram-se outras “atividades escandalosas” (como as próprias explicam ironicamente) tal como passeios ao volante de uma mota ou jogos de críquete na rua. Num país dominado por homens, não há espaço para meninas e mulheres participarem numa partida destas. Mas com a ajuda de amigos e familiares, estas jovens ousaram fazer uma partida de rapazes contra raparigas. Mais uma vez, as fotos foram parar à web. Se inicialmente era estranho para todos, hoje são os próprios rapazes a organizarem jogos de rua onde as senhoras são convidadas. Iniciativas que se alargaram também a Lahore e Islamabad.

A força deste movimento chamou a atenção dos media e a história tem corrido o mundo. O que começou como um ato saudável de rebeldia transformou-se num objetivo concreto: uma recolha de fundos para, construir uma dhaba segura para o sexo feminino, que promova na comunidade uma maior aceitação de algo tão simples quanto as mulheres também poderem ir beber um chai com as amigas em segurança e sem olhares críticos na sua direção. A ideia é ter também staff feminino, acabando por promover postos de trabalho para mulheres.

Com tudo isto, estas senhoras pretendem a ajudar a desmistificar a presença feminina em espaços públicos e criar uma maior consciência para a necessidade de mudança no seu país. Mesmo que tenham de começar com passinhos de bebé dentro do seu bairro. Para isso precisam não só de donativos (já vão em 4 mil dólares amealhados) para ajudar a construir uma dhaba, mas também que o tema ganhe ainda mais força. Pedem doações de bicicletas e motas velhinhas onde as mulheres se possam deslocar, sugerem que haja mais pessoas a organizarem jogos de críquete na rua onde as mulheres são aceites e incitam a que este tema seja debatido dentro de casa, com as pessoas mais conservadoras. E, claro, quantas mais mulheres partilharem as suas fotos e histórias nas redes sociais, mais o tema se torna normal e, consequentemente, a aceitação tenderá a ser mais fácil.

Um belo exemplo de como a união ainda faz a força. E de que a mudança, ainda que seja lenta, pode acontecer. Um chai, uma esplanada e uma selfie afinal podem fazer toda a diferença.