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Expresso

As mulheres também assediam menores

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Na semana passada partilhei convosco a história de Valentina, a menina de doze anos concorrente do Masterchef Júnior que tem sido alvo de assédio sexual através das redes sociais. O caso chocou o Brasil e galgou fronteiras, acabando por pôr milhares de pessoas a falar sobre o assédio sexual de menores. No dia seguinte a ter falado sobre isto recebi uma mensagem de uma leitora d’A Vida de Saltos Altos que me alertava para o facto de não ser só Valentina a única vítima de tais comentários abusivos: Eduardo tem 13 anos e é também alvo de assédio por parte de mulheres que ora dizem que querem ir com ele para o recreio ‘brincar’, ora lhe chamam ‘gatinho’, ora garantem que o estupravam se pudessem.

Talvez não tenha ficado totalmente claro no texto anterior, uma vez que o ponto de partida era a história de Valentina, mas quando falamos de assédio de menores o género da vítima não altera em nada a gravidade da situação. O facto de, regra geral, os rapazes despertarem mais cedo para a vida sexual não significa que isso sirva de premissa para que um adulto o possa assediar. E quando falamos de um adulto, falamos de homens e mulheres. Vivemos numa cultura machista que ainda promove os rapazes enquanto supostos garanhões, que até deviam ficar contentes por uma mulher demonstrar interesse sexual por eles. Quase como numa perpetuação do ritual de perda de virgindade com recurso a mulheres mais velhas e experientes, algo que continua presente no nosso inconsciente coletivo. Tudo isto não só traz um peso acrescido aos rapazes na sua auto-percepção enquanto vítimas, como também revela uma substancial volatilidade de compreensão do ato enquanto agressão quando este é feito por uma mulher.

O assédio sexual de menores não pode ser visto como “brincadeirinha”

Se for um homem a dizer publicamente que gostava de violar um menino de 13 anos – como fizeram algumas utilizadoras do Twitter sobre este miúdo – não tenho dúvidas de que a opinião pública revelaria asco e revolta por tal comportamento. Contudo, quando a agressora é uma mulher o abuso tende a ser menosprezado. Ou, quanto muito, interpretado como uma brincadeirinha. As próprias mulheres, acredito eu, nem sequer se conseguem ver no papel de abusadoras ao fazê-lo. Mas sejamos realistas: por mais que o assédio sexual de menores não seja igual a pedofilia, não pode ser encarado como uma brincadeira ou algo de menor relevância. Há temas com os quais não se pode fazer piadas e este é definitivamente um deles.

Hoje assinala-se pela primeira vez o Dia Europeu para a Proteção das Crianças contra a Exploração Sexual e o Abuso Sexual, mas falar sobre isto é imperativo o ano inteiro. Por mais que ainda seja um grande tabu, sim: o assédio e o abuso de menores levado a cabo por mulheres também acontece. Mas o crime é o mesmo e deve ser punido em conformidade. Se alguém, homem ou mulher, escrevesse publicamente numa rede social que gostava de violar um dos vossos filhos, sobrinhos ou netos, iriam encarar isto como uma simples brincadeira? Eu não. Fazer queixa e pedir ajuda é essencial e por cá aconselho-vos a contactarem a Linha Alerta sempre que se cruzarem com algo do género.