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Expresso

A vida de saltos altos

O sexo e a falta de chá

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Antes de começar este texto, deixo uma breve explicação sobre o significado da expressão popular utilizada como trocadilho neste título: “Ter falta de chá” = comportar-se de forma desrespeitosa; comportar-se sem maneiras; exercer ato de má-fé

Há uns tempos falei aqui sobre uma campanha canadiana que utilizava metáforas como o molho de tomate ou um corte de cabelo para explicar que, no que diz respeito ao sexo, “um não é mesmo um não”. Como base dessa iniciativa estava um estudo alargado da Canadian Women Foundation que concluiu que, no senso comum, 96% dos canadianos percebiam que a atividade sexual tem de ser consensual. Contudo, quando expostos a perguntas mais traiçoeiras, 67% dos mesmos inquiridos revelaram não perceber lá muito bem de que formas o consentimento era dado ou não.

A falta de entendimento sobre o que realmente é sexo consensual não é um problema exclusivo do Canadá. No maior inquérito europeu sobre violência sexual - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que, nos 12 meses anteriores, 3,7 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas sexualmente. Ou seja, uma em cada três mulheres dos 28 Estados-Membros da UE. Foi a pensar em números como estes, principalmente os que dizem respeito ao Reino Unido, que a polícia de Thames Valley lançou uma campanha de consciencialização para o tema através das redes sociais, que tem como ponto de partida um vídeo que fala sobre, nada mais, nada menos, do que chá.

Culpa-se a vítima, desculpa-se o agressor

Se há metáfora que o ingleses podem perceber à primeira, esta é certamente uma delas. Através da comparação entre um chá a dois e um ato sexual consentido, o vídeo não deixa qualquer margem para dúvidas – espreitem e vão perceber porque digo isto – quanto ao real significado de sexo consensual. Desde o facto de que alguém inconsciente não pode dar consenso, ao facto de alguém poder simplesmente perder a vontade a meio e não querer continuar. Um não é um não. E quando a pessoa não está em plena consciência, ou seja, sem conseguir tomar uma decisão, isso não significa um sim.

Esta poderia até parecer uma frase desnecessária, mas os números anteriores revelam que é urgente manter este assunto em cima da mesa (já agora, em Portugal, uma em cada quatro das mulheres inquiridas naquele estudo europeu afirmaram já ter sido vítimas de alguma forma de violência sexual). Por um lado, a sociedade continua muitas vezes a culpabilizar as vítimas – na sua larguíssima maioria, mulheres -, como se estas tivessem a sua cota parte de responsabilidade em tal ato criminoso (ex: por terem vestido roupa provocante; por estarem bêbadas). Por outro, continua a desculpar-se o agressor (na sua larguíssima maioria, homens), como se tivesse direito a interpretar mal o não dado pela vítima (não esquecer os números avultados relativos à violência sexual dentro das relações amorosas, inclusive, nas relações entre jovens), ou se o desejo masculino fosse algo incontrolável. Convenhamos: isto é insultuoso para ambas as partes e não pode ser perpetuado.

Campanhas como esta são uma belíssima forma de desmontar quaisquer dúvidas que possam existir quanto à palavra “consentimento”. Vejam, porque embora o tema seja bastante sério, prometo que irão acabar por soltar umas belas gargalhadas. E que no fim não vão resistir a partilhar o vídeo. O intuito é esse mesmo.