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Expresso

Pedro Arroja, há alturas em que mais vale ficar calado

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O Governo caiu. De todo o lado choveram comentadores dispostos a discorrer sobre o tema. Independentemente da cor política de cada um, todos nós certamente lemos, vimos e ouvimos opiniões verdadeiramente disparatadas nas últimas 24 horas, vindas dos dois lados da bancada. Mas enquanto mulher que assiste a este jogo lá no alto do estádio, longe da confusão, garanto-vos: há uma pessoa que conseguiu conquistar o primeiro lugar no pódio nesta onda de verdadeira verborreia. Pedro Arroja.

Depois dos comentários xenófobos contra António Costa, temos agora comentários misóginos contra as mulheres do BE. Há quem diga que Pedro Arroja é politicamente incorreto, mas já que entrámos nesta fase em que, para quem dá a sua opinião publicamente, afinal tudo pode ser válido, eu diria antes que este senhor é um perfeito imbecil. As suas desprezíveis declarações de ontem sobre "aquelas esganiçadas do Bloco de Esquerda” não são apenas um ataque desrespeitoso às pessoas em questão, mas sim um insulto grave à nossa sociedade em geral. Ofender desta forma assumidamente discriminatória as mulheres de um determinado partido, é ofender todas as mulheres portuguesas. Sejam elas profissionais da política ou não, de esquerda ou de direita.

Não há sinceramente paciência para tais participações bacocas, cujo tempo de antena é destinado a promover o retrocesso. Nas palavras de Pedro Arroja, o casamento gay, a adopção por casais homossexuais e o aborto são causas fraturantes que dividem a sociedade. Se calhar o ideal era nunca chegarmos a levar temas destes a parlamento e mantermos o país com a cabeça enterrada na areia, longe de tamanhos pecados. Nenhum de nós quer uma sociedade dividida, certo? Tal como também não queremos ver mulheres a lutar pela igualdade de género, nem muito menos a chegarem aos cargos que foram dominados pelo mundo masculino ao longo dos últimos séculos. Aliás, o melhor é mesmo voltarmos aos tempos de Salazar e deixar as “esganiçadas” das mulheres em casa a passar a ferro e a cozinhar em barda para a família, se possível, e totalmente dependentes do macho alfa.

Digo mais, se elas no parlamento fazem esta chinfrineira, o ideal é banirmos mesmo as mulheres da vida política ativa e, porque não, retirar-lhes o direito ao voto. Imagine-se que se lhes dá um achaque em plena ida às urnas e que votam contra aquilo que dá jeito aos seus maridos e senhores.... Aliás, malditos progressistas que lhes concederam esse direito há umas quantas décadas. Voltemos aos tempos em que a nossa Constituição dizia que a mulher devia obediência ao homem. Ui, isso sim era uma sociedade verdadeiramente espetacular. Tenho a certeza de que Pedro Arroja bateria palmas.

Vivemos num país de machistas e este é só um exemplo

O mais grave é que não seria o único. Por mais que não se admita isto facilmente, a verdade é que continuamos a ser um país onde o machismo predomina. Onde ver mulheres em posições de liderança ainda gera muita dor de cotovelo e mazelas profundas no ego masculino. Incluindo o medo de perderem o desejado controlo da situação. O mundo político é apenas um exemplo disso e não é de espantar que surjam este tipo de energúmenos que precisam de recorrer às questões de género para fazerem valer o seu ponto de vista.

Entenda-se: comentários destes nem sequer podem ser vistos como argumentos. São vazios de sentido e de conteúdo. Começando pelo facto óbvio de que o aqui que está em causa não são as caraterísticas de género de determinado profissional da política, mas sim as suas ações, propostas e escolhas, que podem ou não pôr em risco o futuro de todo um país. Alguém se lembraria de mandar bitaites sobre se Pedro Passos Coelho se esquece ou não das meias ao cantinho do quarto quando se despe, em analogia às coisas que prometeu em campanha e que ficaram esquecidas? Provavelmente não. Estamos a falar de política, não estamos a falar de vida doméstica. Não baixemos a fasquia, por favor.

Apelar ao machismo e à discriminação é uma forma de ataque bem mesquinha. Que revela não só pouca inteligência, como também uma bela dose de frustração, muito ao nível das birras insuportáveis feitas por uma criança pequena quando já não sabe por onde puxar para fazer valer a sua vontade. Mas Pedro Arroja já não é um menino a quem se possa dar um valente puxão de orelhas e deixar de castigo. É um homem feito. E que deveria saber que o respeito é uma fronteira que não pode ser ultrapassada, mesmo quando nos tiram o rebuçado da boca.

Há alturas em que mais valia ficar calado e esta foi uma delas. Ofender as mulheres do BE é ofender também as mulheres que fazem parte da sua vida. Sinceramente, espero que não sejam muitas.