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Expresso

A vida nas redes sociais é uma falácia

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Nos últimos dias a história de Essena Oneill tem corrido o mundo: uma adolescente australiana seguida por quase 800 mil pessoas no Instagram e Youtube decidiu desmontar a vida falsa que partilhava nas redes socais. Desde as publicações pagas por marcas que queriam simplesmente vender os seus produtos através de um corpo de menina mulher, às imagens que a sexualizavam em postura de mulher fatal quando tinha apenas 16 anos, ao abuso de maquilhagem e de acessórios só para poder publicar mais uma selfie que viesse validar a necessidade de aprovação constante da sua beleza, esta miúda de 18 anos revelou a “dura realidade” - certamente bem menos glamorosa - de quem vive de e para a as redes sociais.

Essena tinha pouco mais de 15 anos quando decidiu abrir uma conta de Instagram. O seu objetivo era a fama online e sabia que “a genética tinha jogado a seu favor”. Ávida por ser conhecida e “obcecada” por ter likes nas redes sociais, ser seguida por milhares de pessoas, transformar-se num ícone de beleza e num exemplo a seguir por outras miúdas da sua idade, dedicou grande parte da sua adolescência às fotos que partilhava na web e ao dinheiro que conseguia fazer com os posts pagos por marcas. Em poucos meses era seguida e admirada por milhares de adolescentes que lhe diziam constantemente que gostavam de ser como ela. Mas o que a larga maioria dos seu seguidores não sabia era que as fotos que partilhava não batiam certo com a sua vida real. Frente às câmaras, o sorriso – forçado – revelava uma miúda supostamente feliz, bem sucedida, cheia de alegria e amigos. Mas longe das câmaras era a solidão intensa que reinava, numa longa descida que a levou à depressão.

Reescreveu as legendas para contar o outro lado da história

Visivelmente emocionada, partilhou um vídeo no Youtube (entretanto retirado porque cancelou a sua conta) onde explicava as razões que a levaram a deitar abaixo o seu conto de fadas virtual. Da sua conta de Instagram apagou a larga maioria das imagens que a tornaram famosa e nas que deixou online modificou as legendas, contando o verdadeiro significado de cada uma. Por fim criou um site intitulado Lets Be Game Changers, onde pretende não só contar as histórias por trás das imagens, mas também promover um fórum onde internautas de todo o mundo possam discutir quão irreal a vida pode ser nas redes sociais e quais os perigos associados a esta grande mentira.

A depressão é um deles. Ainda há umas semanas recordo-me de ler as declarações do diretor do Serviço de Psiquiatria do Hospital Gaia/Espinho, onde revelava que os casos depressivos que derivam da desilusão e da decepção causadas pelas expectativas defraudadas do mundo virtual, por oposição ao mundo real, estão a aumentar progressivamente.

"Atualmente são cada vez mais frequentes episódios de ansiedade, depressão, stresse, fenómenos de dependência e de desenvolvimento de novas perturbações associadas ao uso das novas tecnologias e do fácil acesso a redes sociais", sustentava o especialista, numa notícia publicada pelo Expresso. "A esfera digital e virtual tornou-se um catalisador de novas formas de voyeurismo e exibicionismo, acentuando efeitos de imitação de comportamentos autodestrutivos nas camadas mais jovens, como a automutilação e o suicídio.”

O que é as pessoas procuram nas redes sociais?

Essena teve a coragem de revelar ao mundo a verdade por trás daquilo que a tornou famosa, mas também profundamente infeliz. Ao fazê-lo continua a ter a atenção virtual de que precisa. Podíamos dizer que este é um mal da juventude dos tempos de hoje e que só eles se deixam levar pela ilusão de que tudo o que se vê nas redes sociais é verdade. Mas não é bem assim. Basta abrir o Facebook para vermos que à nossa volta existem inúmeros adultos igualmente sedentos de atenção e de validação. Muitas delas preenchem verdadeiros buracos emocionais publicando fotos de uma vida que não é real, onde habitualmente não faltam festas com muita gente, corpos perfeitos em biquíni em cenários paradisíacos, idas a ginásios com frases motivacionais, restaurantes da moda, amores e famílias perfeitas ou frases profundas sobre a vida acompanhadas de imagens em contemplação do horizonte.

Claro que, por exemplo, nunca ninguém revela quantas fotos em pose foram precisas para chegar àquela final sem ponta de barriguinha, supostamente tirada ao primeiro clique. Nem ninguém vem dizer abertamente que quando sai do ginásio muitas vezes devora chocolates porque se sente triste. Nem muito menos que tem problemas conjugais ou que está a passar por uma crise financeira. Os que o fazem, novamente, estão muitas vezes em busca de atenção instantânea. E um like ou um comentário solidário, conseguidos em poucos segundos, são um penso rápido para muitas da dores que só se tratam certamente longe dos ecrãs dos computadores e telemóveis.

Não sejamos ingénuos: as redes sociais são um grande palco para o lado bonito da vida. Mas a vida – seja ela de quem for - não tem só esse lado.