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Expresso

É legítimo abusar de uma mulher porque está bêbada? Pelos vistos, sim

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Imaginemos uma turista perdida e visivelmente alcoolizada, a meio da tarde, numa rua do centro histórico de uma grande cidade europeia. O que lhe pode acontecer? Provavelmente, a primeira coisa que passa pela cabeça de muitos de nós é que alguém a tentará ajudar a encontrar o seu hotel ou que a encaminhará para as autoridades. Contudo, uma experiência realizada pelo Centro Europeu Neurosalus revela que a resposta pode não ser bem essa. Abordagens jocosas, assédio e abuso sexual são três das coisas mais prováveis de acontecer.

A experiência foi feita em Madrid, propositadamente durante a tarde e longe de qualquer zona com conotação mais marginal. A mulher, uma atriz contratada para esta experiência, começa por ser abordada por um grupo de três homens, que lhe perguntam de onde é. Entre risos e frases confusas, atitude típica de quem está alcoolizado, ela explica que não é da cidade, que se perdeu dos amigos e que ficou sem bateria no telemóvel. Eles começam por dizer que a vão ajudar a encontrar os amigos, mas oferecem-se imediatamente para lhe pagar mais umas bebidas. Quando ela diz que já bebeu demais, ele só se riem e tentam convencê-la a irem até ao bar mais próximo todos juntos. Se, por si só, acham isto grave, não se iludam: há bem pior.

De seguida, dois “irmãos” oferecem-se também para lhe oferecer bebidas e para a “guardarem” até conseguirem encontrar as suas amigas, que deverão ser “tão bonitas quanto ela”. Pelo meio tem direito a abraços, mãos na cintura e na barriga. Noutra situação, um homem põe-lhe automaticamente o braço sobre os ombros quando ela diz que não sabe onde está. Quando ela diz que já bebeu demais ele pergunta-lhe se é casada e oferece-se depois para levá-la ao seu hotel, onde supostamente tem um carregador para o seu telemóvel. Ela mostra-se relutante, mas ele continua a insistir, sempre com a promessa de que depois vão juntos “fazer festa juntos” e encontrar os amigos perdidos. Um empregado de restaurante aborda-a quando ela está encostada a uma parede a beber da garrafa. Pergunta-lhe o nome e mal ela se começa a rir ele atira o piropo “és bonita, demasiado bonita”. Embora ela só ria, ele agarra-a pela cintura e tenta automaticamente beijá-la no pescoço. Desta vez um elemento da sua equipa tem de intervir e, sem revelar que estão a ser filmados, retira-a das mãos do homem quase à força.

“Ela estava mesmo a pedi-las” não pode continuar a ser desculpa

Em comum na abordagem de todos estes homens está o facto de lhe quererem sempre oferecer mais bebida para mantê-la embriagada. E mesmo quando ela pergunta se é boa ideia, uma vez que já se sente meio bêbada, todos garantem que mais uns copos não lhe farão mal. Oferecem-se para beber com ela e prolongar a embriaguez, visivelmente com intuito de incentivar um contacto mais íntimo e pouco consciente. Possivelmente em grupo. Ou seja, voltamos ao típico raciocínio: “ela estava mesmo a pedi-las”. Como se o facto de estar alcoolizada, e consequentemente mais vulnerável e descontrolada, fosse razão para que alguém se possa aproveitar da situação. Como se isso lhes desse legitimidade para tamanho abuso. No fim, provavelmente a culpa até seria da vítima, não só porque se “pôs a jeito” como também porque “se estava a insinuar” com a sua debilidade risonha. Nojento. É mesmo esta a palavra que me passa pela cabeça quando veja tais atitudes que são, aliás, puníveis por lei.

No fim do vídeo, o especialista do Centro Europeu Neurosalus responde às dúvidas que provavelmente surgem a quem vê o vídeo: não, eles não selecionaram apenas os piores momentos, aliás, as situações mais abusivas (desde ofensas a tentativas de agressão) foram retiradas do vídeo final. Também não existem exemplos de pessoas que tentam ajudar a mulher alcoolizada porque, simplesmente, não houve ninguém a ter essa atitude. E deixa uma questão pertinente no fim, que merece a reflexão de todos nós: se isto acontece durante a semana, a meio do dia, quando centenas de pessoas estão a passar à volta, o que poderá acontecer por exemplo a uma adolescente bêbada numa sexta-feira à noite? A resposta nós sabemos qual é. E não é bonita.