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Rachael Farrokh: seis meses de reabilitação que a devolveram à vida

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Lembram-se da história de Rachael Farrokh que partilhei convosco no início da primavera? Tinha 37 anos, pesava apenas 20 quilos e vivia em constante luta contra a anorexia nervosa há mais de dez anos. Uma luta que estava prestes a perder, dado que não atingia o limite mínimo de peso exigido para ser inserida num programa de reabilitação. Sem dinheiro e desesperado por salvar a vida da mulher, o seu marido Ron Edmondson gravou uma pequena entrevista a Rachael, num vídeo duríssimo partilhado junto com uma campanha de recolha de fundos. Nele a ex-atriz fazia um apelo: "Eu preciso da vossa ajuda, de outra maneira não vou conseguir. Estou pronta para ficar melhor”.

O pedido de ajuda de Rachael e Ron tornou-se viral e ao todo angariaram quase 200 mil dólares. Passados todos estes meses, e em franca recuperação, Rachael é a primeira a dizer: “Sinto que hoje em dia tenho uma enorme família e ela chama-se ‘mundo’. Todas estas pessoas abraçaram-me de uma forma única”.

Depois de várias tentativas falhadas de tratamento nos Estados Unidos, Rachael conseguiu recuperar o peso mínimo exigido para poder viajar e acabou por mudar-se para uma clínica em Portugal. Numa entrevista à NBC, disse que desde que recebeu esta ajuda monetária "finalmente foi tratada com respeito” e que antes “não sabia sequer que merecia ser tratada dessa forma". Mais confiante e com maior clareza de espírito, Rachel aproveitou ainda para esclarecer a diferença de abordagem: “Antes estavam apenas preocupados com o meu corpo e este não respondia porque eles não percebiam que o meu cérebro tinha de ser tratado ao mesmo tempo. Hoje a minha mente está tão mais clara e o meu pensamento conseguiu evoluir.”

O que menos interessa é quanto peso Rachael recuperou

Embora na página Rachael’s Road to Recovery os seus familiares vão partilhando os seus avanços na recuperação da anorexia, foi com a respiração sustida que muitos viram na semana passada a sua enorme transformação quando se deslocou a Washington para participar na Marcha Contra os Distúrbios Alimentares. Praticamente irreconhecível, embora ainda debilitada, Rachael demonstrou a sua vontade de se tornar porta-voz destes distúrbios que, nunca é demais relembrar , vão muito além da simples “mania das dietas” e acarretam dores psicológicas inimagináveis. Além de processos de reabilitação duríssimos.

Num texto escrito pelo médico português que acompanha Rachael, publicado na mesma página no início de outubro, este explicava como todo o processo exige tempo, dedicação e paciência e, embora agradeça a todos as perguntas relacionadas com o bem-estar e evolução do tratamento desta paciente, deixa o pedido: “abstenham-se de fazer perguntas sobre o seu peso porque ela já sente que não merece viver sem dor e o facto de se permitir ganhar qualquer peso gera uma grande culpa na sua mente.”

Quanto peso Rachael já recuperou, não interessa, o que merece atenção é mesmo a coragem e resiliência gigantes desta mulher, que aos poucos está a vencer os seus demónios interiores e a conseguir regressar à vida quando tudo parecia perdido. “Voltei a estar animada com a vida, porque o que não passava de um vislumbre de esperança há 3 meses, transformou-se numa certeza de viver. O meu objetivo neste processo de recuperação é criar mais consciência e educação, a fim para ajudar outros que estejam a lutar contra esta doença."

O seu caso poderá inspirar tantos outros casos que se julgam sem solução e alertar para esta realidade que afeta tantas pessoas mundo fora. Tal como já tinha escrito por aqui em tempos, que não sobrem dúvidas: as doenças do comportamento alimentar são um problema de saúde pública, cujos sintomas ninguém deve desvalorizar. Perda de peso acentuada, isolamento progressivo, alterações de humor com acessos de agressividade e modificação dos hábitos alimentares são alguns deles. E embora seja mais comum em raparigas adolescentes, a incidência no sexo masculino também tem aumentado nos últimos anos. Tal como em pessoas adultas.