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Expresso

Shumi: a rapariga sem cara, mas com mente

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Shumi

Há dezoito meses o sonho de Shumi passava por ser modelo. Era uma adolescente de 17 anos, como tantas outras. Gostava de partilhar coisas no Facebook, de experimentar novas maquilhagens e cores de verniz. Um dia apaixonou-se. Ele gostava dela, ela gostava dele. A família aprovou e começaram a sair. Mas rapidamente Shumi percebeu que aquela paixoneta de adolescente não era para si: se ela usava maquilhagem, ele ficava ciumento e tornava-se agressivo ao ponto de a insultar no meio da rua, acusando-a de se embelezar para atrair outros homens. O namorico foi andando até ao dia em que ele, também ainda pouco mais do que um adolescente, a pediu-a em casamento. Nesse momento ela percebeu que, se não queria tal relação na sua vida, teria de pôr um fim. Rejeitou-o. A fúria do rapaz despeitado resultou num ataque com ácido sulfúrico que a desfigurou e cegou parcialmente para sempre.

Passaram-se nove meses desde que foi brutalmente atacada em Dhaka, no Bangladesh. O ex- namorado e outros quatro homens que participaram no ataque estão agora na prisão. Inicialmente, com a face desfigurada e a perda parcial da visão, Shumi sentiu-se também presa. Em si mesma, na desgraça que lhe tinha acontecido. Hoje em dia, ainda a vive na clínica sente-se feliz com coisas tão simples como o facto de alguém se sentar ao lado dela a conversar sem sentir medo da sua cara.

Embora o apoio da equipa da Dhaka Acid Survivors Foundation seja uma grande ajuda, conseguir quebrar o medo e voltar a sair à rua pode demorar muito tempo. Coisas tão simples quanto ir beber um chá ou fazer compras num mercado tornam-se tarefas hercúleas para quem sabe que não vai passar despercebida mal ponha um pé na rua. Há quem vá sentir pena, há quem vá sentir nojo, há quem tenha medo e quem nem sequer consiga olhar. Mas poucas, ou nenhumas, serão as pessoas que conseguirão olhar para ela como olhavam há nove meses.

Ácido: sanções pesadas para vendedores ilegais e criminosos

Segundo a Fundação que se dedica a reintegrar estas mulheres e meninas do Bangladesh, a maioria das vítimas de ataques com ácido sulfúrico têm entre os 13 e os 35 anos e as motivações passam quase sempre por supostos crimes de honra: homens despeitados por ciúmes, pedidos de divórcio ou rejeições a pedidos de casamento estão no topo da lista, como forma de subjugação mulher através da destruição da sua beleza, quando esta decide manifestar o poder da sua vontade. Mas também há casos de vinganças por partilhas de terras – mesmo que as mulheres não tenham nada a ver com isso são elas as atacadas – ou reclamações de dotes.

Embora a Organização Mundial de Saúde ainda não tenha dados globais disponíveis sobre a dimensão deste crime, sabe-se que são mais comuns em países como Bangladesh, Afeganistão, Cambodja, China, Índia, Jamaica, Nepal, Nigéria, Paquistão, África do Sul e Uganda. No que diz respeito ao Bangladesh, onde o ataque a Shumi aconteceu, mos últimos 15 anos muito mudou e os números têm vindo a diminuir: em 2002 foram registados 494 ataques, em 2014 foram 59. A ação levada a cabo pelo Governo, desde 2002, com inclusão de sanções pesadas para a venda e porte ilegal de ácido sulfúrico (até dez anos de prisão) em muito ajudou na redução do números, exemplo que o Paquistão quer agora seguir.

Para espelhar esta realidade, um repórter da Channel 4 acompanhou a vida de Shumi durante várias semanas. Dessa jornada resulta um vídeo transmitido por aquele canal de televisão há poucos dias, que mostra quão difícil pode ser conseguir regressar à vida após este tipo de ataques.

Para sempre fica registado o primeiro dia em que Shumi enfrentou os seus próprios fantasmas e conseguiu sair à rua pela primeira vez para comer um gelado, na companhia das várias “irmãs” que fez na fundação. Maquilhada, de cabelo bem penteado, óculos de sol e roupa escolhida a dedo, como qualquer outra adolescente: “Com toda esta dor que tenho passado apercebi-me de quão forte consigo ser. Posso ter perdido parte da minha visão, mas ainda tenho a minha mente”. Palavras sábias de Shumi, cuja história podem ver no vídeo em baixo.