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Expresso

A ansiedade não é um capricho, é uma casa assombrada

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“Amarem-me é amarem uma casa assombrada. É giro visitá-la uma vez por ano, mas ninguém quer viver lá”. Se há frases que nos fazem parar e respirar fundo, esta é certamente uma delas. E foi precisamente o que aconteceu com a audiência do 2015 National Poetry Slam, em Portland, quando Brenna Twohy passou de um discurso brincalhão sobre situações dignas de filme de terror a que estamos tão habituados que já só nos fazem rir a todos, para uma metáfora brilhante que compara a ansiedade e os ataques de pânico a “um fantasma teimoso que, quando nos apanha, passa meses sem nos largar”.

“Escritora, poetisa, mulher que faz truques de magia”, certamente com as palavras também: é assim que esta norte-americana se descreve no seu site e depois e ver a sua última performance sobre um tema tão delicado quanto este, não tenho dúvidas de que realmente a descrição é certeira. No que nos diz respeito, este vídeo surge numa altura pertinente. Há poucos dias, a Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental revelou números preocupantes sobre a realidade nacional: as doenças do foro da ansiedade afetam 16,5% dos portugueses, uma das percentagens mais elevadas da Europa.

A ansiedade é a doença mental mais prevalente em Portugal – principalmente entre os 18 e os 34 anos - mas ainda são poucas as pessoas que realmente a consideram digna de preocupação, como se não passasse de aquilo que os brasileiros chamaria de “frescura”. Um grande erro, daqueles podem sair bem caros a longo prazo. Aliás, a própria SPPS ressalvava no Dia Mundial da Saúde Mental: quando a ansiedade se torna crónica, esta é considerada uma doença mental. E quando o tal “fantasma teimoso” interfere de forma definitiva na vida emocional e familiar ou profissional e social, significa que a pessoa está doente e deve ser tratada.

Ataque de pânico: um túnel de profunda agonia

Tenho a sorte de nunca ter tido uma crise aguda de ansiedade, também conhecida por ataque de pânico. Mas entre familiares e amigos, já assisti a algumas. Do outro lado a pessoa fica muitas vezes com o coração a saltar do peito, sudação intensa, totalmente submersa numa verdadeira confusão mental que a faz sentir que vai morrer a qualquer momento. Deste lado, total impotência. Não é definitivamente a frase “tem calma, isso já passa” que vai ajudar. Naquele momento, não há racionalidade possível e aquela pessoa, em sofrimento profundo, simplesmente não a consegue compreender. Está enfiada num túnel de agonia.

Escusado será dizer que viver com isto diariamente não é fácil. Nem para a pessoa que sofre, nem para a pessoa que assiste sem nada conseguir fazer. O processo é imprevisível, cansativo, desgastante. Estar e ficar é possivelmente a ajuda mais importante, mas engane-se quem acha que é fácil. É um ato não só de amor, mas também de capacidade de enfrentar o desconhecido. “Amas-me como aquela família que entra de mãos dadas na Casa do Terror. Não és estúpido ou descuidado, nem sequer és corajoso. Simplesmente nunca viste por entro como é viver num sítio assombrado”, explica Brenna Twohy nesta sua performance “Anxiety: A Ghost Story”. “Não vais conseguir raspar o sangue dos rodapés, mas vais certamente ajudar a iluminar a casa.”

Quer tenham vivido uma situação destas, quer não, ver este vídeo faz sentido. Nem que seja para despertar uma maior consciência para o sofrimento que a ansiedade crónica acarreta ao dia a dia de tantos de nós que vivem dentro da tal casa assombrada. Sem sequer terem coragem de pedir a alguém que os ajude a acender a luz e a tirar o papão debaixo da cama. Ou sem conseguirem aceitar a ajuda de quem o quer fazer. A ansiedade não é um simples capricho dos tempos modernos. É uma doença e deve ser tratada como tal.