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Expresso

O que é que molho de tomate e sexo têm em comum? Este vídeo explica

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Este título pode até parecer disparatado, tal como as várias situações recriadas no vídeo que o inspiraram. Contudo, ainda mais disparatado é que nos tempos que correm sejam ainda mesmo muitas as pessoas que não conseguem perceber que, também no que diz respeito a relações sexuais, um não é mesmo um não. E um não pode ser dito depois de ter sido inicialmente demonstrada vontade. Tal como pode ser dito dentro de uma relação. A partir do momento em que é dito, mais uma vez, não é não. Parecia-me, à partida, totalmente desnecessário voltar a bater nesta tecla, mas depois de reler as estatísticas surreais sobre o tema acho que devo fazê-lo: um ato sexual pressupõe o consentimento de todas as partes envolvidas e não há nada que possa inverter isto. Caso tal não aconteça, estamos a falar de sexo não consentido, ou seja, violência sexual.

Para facilitar os mentecaptos que não entendem algo tão simples, a Canadian Women Foundation lançou uma campanha imperdível em vídeo. Com exemplos simples da nossa vida diária, mas que servem de metáfora perfeita para esta temática. Quando vamos ao cabeleireiro e dizemos que já chega de tesourada, toda a gente nos percebe à primeira. Quando dizemos a um empregado de mesa que já chega de molho de tomate, ele também percebe à primeira e para. Então porque será que é assim tão difícil perceber isto quando falamos de sexo?

Dentro de uma relação não é preciso consentimento. Ou será que é?

O que um estudo alargado desta fundação concluiu foi que, no senso comum, 96% dos canadianos percebiam que a atividade sexual tem de ser consensual. Contudo, quando expostos a perguntas mais traiçoeiras, 67% dos mesmos inquiridos revelaram não perceber lá muito bem de que formas o consentimento era dado ou não. Os dados revelavam também que, mais de 60% das canadianas já tinham sido alvo de assédio ou violência sexual, que 10% considerava que numa relação não era suposto haver consentimento e que 21% acreditava que o envio de uma foto ou sms com teor sexual pressupunha o consentimento para o ato.

Todos sabemos que a tradição patriarcal das nossas sociedades permitiu, durante muitos séculos, que o domínio económico dos homens e respetiva dependência das mulheres validasse os “deveres conjugais”, nos quais o sexo estava incluído. Durante uma boa parte da história da humanidade, não houve oportunidade de uma mulher dizer não. Aliás, em muitos países com tal sistema patriarcal isto continua a ser assim. Mas não é só nesses países que esta mentalidade continua presente, mesmo que de formas menos assumidas. Lembram-se, por exemplo, dos dados referentes à Austrália? Uma em cada seis australianas são alvo de violência física ou sexual extrema por parte do parceiro, pelo menos uma vez na vida. E mais de 73% dessas vítimas são atacadas mais do que uma vez.

Europa: uma em cada três mulheres são agredidas sexualmente

Já no maior inquérito europeu sobre o tema - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que, nos 12 meses anteriores, 3,7 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas sexualmente. Ou seja, uma em cada três mulheres dos 28 Estados-Membros da UE. Já em Portugal, que até surge abaixo da média europeia, 24% (ou uma em cada quatro) das mulheres inquiridas afirmaram já ter sido vítimas de alguma forma de violência sexual.

Os resultados deste estudo, divulgado em 2014 pela Agência para os Direitos Fundamentais, diziam ainda que a violação dentro do casamento não é uma raridade na Europa. E que entre as inquiridas, uma em cada cinco grávidas fora violentada pelo menos uma vez pelo parceiro atual.

Posto isto, parece-me que – embora vergonhoso – continua realmente a existir muita gente que não percebe que ‘um não é mesmo um não’. E faz-me compreender por que é que, mesmo num país à partida evoluído como o Canadá, ainda seja preciso fazer campanhas destas. Vejam (demora só 30 segundos) e partilhem. Pode ser que elucide algumas bestas por cá.