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Expresso

A Malala é melhor que a Barbie

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Roberta Bondar, J.K. Rowling e Malala Yousafzai em versão boneca

Cresci numa geração rodeada de personagens como o Super-Homem e o X-Men, as Tartarugas Ninja que curiosamente só tinham nome de rapazes, o Super Mário nas consolas de jogos, os lutadores surreais do Dragon Ball e demais imagens masculinas heroicas na televisão e baú dos brinquedos. No que dizia respeito às meninas, tirando as irritantes Navegantes da Lua (que choravam e guinchavam cada vez que havia uma luta), lá vinham a Gata Borralheira e a Branca de Neve sempre em busca dos príncipes encantados que as salvavam das mãos dos maus. Lembro-me distintamente do dia em que decidi perguntar à minha mãe por que é que nos desenhos animados não havia nenhum super-herói que fosse uma menina. A resposta parecia-lhe, à partida, óbvia: “Fazes cada pergunta. Então não vês que os meninos são mais fortes e devem proteger as meninas?”. A mesma que resposta que muitas mães dariam nos idos anos 80 e 90 e que, muito provavelmente, hoje ainda darão.

Não voltei a perguntar, mas de vez em quando vinha-me à cabeça uma constatação: Se eu jogava à bola e brincava às lutas tão bem quanto um rapaz, porque raio não haveria de existir uma menina que fosse tão forte quanto aqueles bonecos da televisão? Conclusão: eu odiava bonecas e queria ser um menino como o meu irmão. Cresci e fui percebendo desde a adolescência que os estereótipos sexistas da nossa sociedade conseguem ser bem mais graves do que os dos bonecos infantis. Também não me foi difícil constatar que é em boa parte graças a eles que muitas mulheres nem sequer questionam por que é que os homens têm de supostamente estar em posições ligadas ao poder, liderança e criação, enquanto que para o mundo feminino é esperada uma maior dedicação, por exemplo, às questões maternais e românticas, ao ensino, à moda e às compras. Será que realmente temos mais jeito para estas funções, ou será que somos estimuladas desde pequenas para acreditar que é para isso que servimos?

Os brinquedos que escolhemos para os nosso filhos podem ser errados

Lembro-me de no verão passado ter lido as declarações de Athene Donald sobre este tema durante o seu discurso enquanto nova presidente da Associação Britânica de Ciência. Na altura, esta professora de Física Experimental na Universidade de Cambridge garantia que o facto de educarmos as meninas com brinquedos mais dirigidos para a passividade, como as bonecas – onde o estímulo é pouco mais do que penteá-las, maquilhá-las e mudar-lhes a roupa – era um corte à sua capacidade criação, imaginação e construção. Capacidades essas estimuladas, por exemplo, com brinquedos como os famosos Legos que, regra geral, damos aos meninos. Uma razão que pode facilmente estar associada ao facto de menos de 14% dos estudantes de engenharia serem mulheres.

“Precisamos de mudar a forma como pensamos sobre os rapazes e as raparigas e sobre o que é apropriado para eles desde os primeiros anos de vida. A escolha de brinquedos interessa? Eu acredito que sim”, disse Athene Donald, durante o seu discurso. “Podemos ver os anúncios dos brinquedos para meninos dominados por poder e luta e as raparigas parecem ser capazes de viver só com amor e magia. Peço desculpa, mas não acredito que isso as vá levar longe.”

Em 2012 houve uma marca de brinquedos que fez burburinho ao lançar umas bonecas com vocação para a engenharia e desportos radicais, bem diferentes das Barbies e demais bonecas com corpo estereotipado de mulher sexy, que a mim me parecem pouco apropriadas para meninas pequenas (mais um exemplo do que nos entra pelos olhos desde miúdas, enquanto padrão de beleza feminino). Agora, e à contínua falta de heroínas no mundo fictício, surgem as Mighty Dolls: umas bonecas que retratam heroínas reais dos tempos modernos.

Representação de Waris Dirie, a modelo e atriz da Somália reconhecida pelo seu trabalho de ativista

Representação de Waris Dirie, a modelo e atriz da Somália reconhecida pelo seu trabalho de ativista

Pela mão da artesã sul-coreana Wendy-Tsao, estão agora à venda no mundo online bonecas de figuras como a Prémio Nobel da Paz, Malala Yousafzai, a escritora best-seller, J.K. Rowling, a modelo e ativista dos direitos humanos, Waris Dirie, ou Roberta Bondar, a primeira astronauta canadiana e a primeira neurologista a ir para o espaço.

Mesmo que não sejam peças que estimulem diretamente capacidade de raciocínio para a organização e construção, são certamente bonecas que podem abrir a mente das meninas para o que pode ser afinal o papel das mulheres na nossa sociedade. Principalmente se forem acompanhadas da história de cada uma destas personalidades retratadas nas bonecas. O papel de contar de forma apelativa as façanhas destas mulheres tão especiais caberá aos pais. E tem tudo para poder ser, não só, bem divertido, como inspirador.