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Expresso

‘Mamma Kulea’, a mulher que salva meninas da escravidão sexual

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Younis tinha nove anos quando foi oferecida pela família a um homem de 78 para ser a sua próxima esposa. Sem perceber o que isso significava, foi obrigada a mudar-se para a casa do homem, onde viveu durante uma semana. Quando o marido, com idade para ser seu avô, lhe explicou os seus deveres conjugais, Younis disse-lhe que então não queria ser sua mulher. Ele espancou-a com uma cana como lição. Foi nesse momento que a menina soube que fugir era a sua única opção. Tinha ouvido falar de uma mulher que ajudava crianças das tribos samburu, prometidas para casar ou oferecidas aos guerreiros para favores sexuais, e esgueirou-se de casa durante a noite. Sozinha e descalça, caminhou mais de 100 quilómetros até à cidade onde lhe tinham dito que a tal mulher vivia, com um objetivo que a fazia superar todas as dores: ser livre de tal destino. Quando chegou a Maralal, encontrou aquela que hoje chama de mãe: Josephine Kulea.

“Mamma Kulea”, ou em português, mamã Kulea. É assim que praticamente todas as meninas salvas por esta mulher a chamam diariamente. Queniana, nascida precisamente numa tribo samburu, teve a sorte de ter uma mãe que decidiu contrariar as tradições, protegendo-a de tais rituais e deixando-a ir para a escola. Hoje é enfermeira e ativista reconhecida na luta pelos direitos das meninas e das mulheres no Quénia. Em 2011 fundou a Samburu Girls Foundation, uma fundação que já salvou mais de mil meninas com a ajuda de outras ONG presentes no país. E que até agora já abrigou mais de 200 meninas que estariam sujeitas àquelas tradições seculares que, embora sejam ilegais, continuam a ser práticas comuns e sem qualquer tipo de punição. Esperemos que na Nigéria, onde a proibição da mutilação genital foi aprovada esta semana, a justiça venha a agir de forma mais pesada.

Casamento infantil, mutilação genital e beading, são estes os três grandes focos de atenção de Josephine Kulea no seu dia a dia. As duas primeiras são conhecidas de todos nós, a terceira nem todos ainda ouviram falar embora seja tão ou mais cruel do que as anteriores. Uma vez que nos samburu os rapazes entre os 15 e os 30 anos são “guerreiros”, não têm autorização para casar. Contudo, meninas com menos de nove anos podem ser presenteadas com um colar de missangas que lhes dão a suposta “honra” de serem escravas sexuais dos seus parentes. Os mesmo colares que nós, turistas que visitamos o país, trazemos como recordação, associando-os tantas vezes a simples rituais de beleza.

Violações consentidas pelos pais em prol da tradição

Na verdade, o beading - entrega deste tipo de colar - é feita com pompa e circunstância e a mãe da menina fica encarregue de construir uma pequena cabana onde as relações sexuais acontecem sempre que o rapaz assim desejar. Violações, portanto. Nenhuma menina tem palavra a dar, estão ali para servir os homens que protegem a tribo e devem sentir-se honradas pela sua tarefa. Pelo meio têm de ter o cuidado de não engravidar – embora meios contraceptivos não façam parte das suas vidas e muitas delas nem sequer tenham noção do como se faz um bebé - e caso tal aconteça, devem provocar o aborto com mezinhas ou então matar a criança à nascença. Nenhuma irá encontrar marido se já tiver um bebé resultante desta tradição e aqueles que compram os seus corpos com a oferta de um colar também não o serão.

Josephine sabe que estas são práticas seculares e que, para muitos dos pais destas crianças, são rituais tidos como sagrados, logo, aceitáveis. Mas esta mulher não desiste de quebrar as tradições. Acredita que a educação é a chave para a mudança e que as mulheres podem vir a ter um papel preponderante no desenvolvimento do seu país. É por isso que investe tudo na formação destas meninas e em ações de sensibilização nas aldeias que a rodeiam. Além das mais de 1000 meninas que já salvou de situações de violência - e que nenhuma família procura porque passam a ser vistas como uma vergonha para a tribo – também já conseguiu poupar a vida de mais de 30 bebés resultantes das tais gravidezes indesejadas.

Depois da visita de Barack Obama, que fez questão de enaltecer o trabalho desta mulher na sua mais recente visita ao Quénia, Josephine tem recebido doações vindas um pouco de todo o mundo, que lhe permitiram inaugurar no início deste mês um novo dormitório para 80 meninas. Contudo, a lista de espera de crianças, vítimas da sua própria cultura, parece não ter fim. Se quiserem ajudar esta mulher coragem na sua causa, podem ver aqui como fazê-lo.

Entretanto, nada como espreitar esta reportagem que passou na CNN na semana passada para perceberem melhor o trabalho incansável de Josephine Kulea, a eterna mãe das meninas samburu.