Siga-nos

Perfil

Expresso

Uma história de bullying pela voz de Kate Winslet

  • 333

Sei que muita gente não gosta de ouvir isto, mas sejamos realistas: as crianças podem ser o melhor do mundo, mas não são intrinsecamente boazinhas. Costumo compará-las a um diamante em bruto, que condensa todas as caraterísticas de uma pedra que pode vir a ser preciosa, mas que ainda não passou por todos os processo que a podem tornar, por fim, tão especial. Tal como os diamantes em bruto, cada miúdo é único na sua personalidade e precisa de passar pelo complexo processo da educação para se ir transformando no tal diamante equilibrado. Isto faz com que educar uma criança seja possivelmente o maior dos desafios que um ser humano pode enfrentar e durante esse processo todos temos de ter isto presente: a crueldade entre os mais pequenos é comum.

Lembro-me de no fim de 2014 os números revelados pela UNICEF serem alarmantes: com base em dados de 190 países, uma em cada três crianças, com idades entre os 13 e os 15 anos, são regularmente vítimas de bullying na escola. Já na primavera passada, também o Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE revelava que em Portugal, o total de estudantes envolvidos em casos de ‘bullying’ poderia ascender já aos 240 mil.

Posto isto, e por mais que muita gente goste do abominável cliché “isso do bullying sempre existiu e nós sobrevivemos”, é essencial que se criem estratégias para consciencializar tanto adultos, como crianças, para os efeitos nefastos a curto e longo prazo destas situações de abuso. Fazer chegar a mensagem é essencial e foi a pensar nisso que o escritor e criativo Galvin Scott produziu uma animação verdadeiramente imperdível, que todos os adultos deviam ver e mostrar aos miúdos que têm em casa.

Um vídeo que ajuda a prevenir

A animação chama-se “Daisy Chain” e, pela voz da multi-premiada Kate Winslet, conta a história de uma menina que é perseguida por um grupo de bullies, que não só a atormentam e humilham, como ainda lhe tiram fotos maldosas que penduram em todas as árvores do parque onde costuma brincar. Bree, a menina, vai contar com a ajuda de Benjamin, uma personagem famosa de um livro interativo australiano criado pelo mesmo autor há três anos, quando percebeu que o comportamento apático do filho em casa se devia ao facto de este ser vítima de bullying na escola. Na altura, e à falta de materiais que o ajudassem a lidar com a situação, Galvin Scott decidiu inventar uma história para contar aos seus três filhos. Esse conto acabou por se transformar num livro interativo criado pela sua agência digital e tornou-se num best-seller internacional.

“Daisy Chain” é o culminar de vários anos de desejo de passar dos livros para a animação em vídeo. Em entrevista ao The Guardian, Scott explicou há uns dias que embora não seja psicólogo, nem especialista em bullying, é pai. E que a experiência que teve com o seu filho do meio lhe serviu para tirar algumas conclusões: “Pelo que observo, o bullying está cada vez pior por causa das redes sociais e dos telemóveis. Este aparelhos podem ser brilhantes em muitos aspetos, mas é também muito fácil clicar num botão e deixar milhões de pessoas verem uma imagem. O impacto disto nas crianças é devastador.”

A animação teve o apoio de várias associações australianas e pretende ser um veículo para pais e educadores abordarem este tema junto dos mais novos, quer suspeitem que estes possam estar envolvidos em casos de bullying, quer não. A ideia conta ainda com a participação mediática da atriz Kate Winslet, que precisamente este verão revelou ao mundo ter sido vítima de bullying durante a sua infância e adolescência.

Sofrer em silêncio é, para muitas das crianças agredidas, uma primeira solução. Tal como para muitos bullies, a agressão é por vezes a forma de extravasarem também um sofrimento com o qual não sabem lidar. Cabe-nos a nós adultos guiarmos tanto uns, como outros. E este vídeo pode ser um bom ponto de partida para abordar a questão. Por agora ainda só há a versão em inglês, mas não há nada como se amarem em Kate Winslet e serem vocês próprios os narradores durante cinco minutos. O resultado pode bem valer a pena.