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Tem 1,70m, 55kg e veste 36. Mas é demasiado gorda para modelo

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Charli Howard tem 23 anos, mede à volta de 1,70m, pesa 55kg e veste um tamanho 36, mas a sua agência de modelos recusou-se a passar-lhe mais trabalhos. Porquê? É inacreditável, mas é verdade: na óptica dos entendidos ingleses, Charli está em má forma física, é demasiado gorda e precisa que se consiga ver mais um bocadinho de osso nas suas ancas para poder desfilar. Sei que este tema já deu que falar por aqui noutras ocasiões, mas acho que nunca é demais dar a conhecer as atrocidades que são ditas a jovens mulheres no mundo da moda, onde por mais que se fale em inclusão e de uma nova percepção dos padrões de beleza, a magreza extrema continua a ser a regra três simples. Que, convenhamos, no que diz respeito à saúde pode ser muito complicada.

Claro que este tipo de atitude condenável e pouco consciente por parte daquela indústria não é novidade, há anos que isto acontece e que influencia drasticamente a vida de milhares de modelos e/ou aspirantes à carreira. Casos de miúdas que se deixaram levar pelas eternas exigências de magreza doentia e que acabaram em processos de distúrbios alimentares são mais que muitos. Não podemos dizer que é a causa exclusiva do problema, mas que é um factor de peso, lá isso é inegável. Mas o que se está a transformar numa tendência é a exposição pública não só deste tipo de situações por parte da indústria, como também de qualquer tipo de “body shaming” feito também por parte do público. Que acreditem, consegue ser igualmente surreal.

A forma encontrada por muitas modelos para se defenderem têm sido verdadeiros manifestos online, feitos através das redes sociais, que se tornam virais na web. Ainda há duas semanas contei aqui a história de Gigi Hadid, a modelo que até de “Miss Piggy” e “vaca gorda” foi insultada após um desfile em biquíni. A resposta às críticas sem fundamento de que foi alvo, fê-la no seu Instagram. Também este verão a modelo sueca Agnes Hedengard fez um vídeo seu em roupa interior que partilhou no seu perfil do Youtube, após ter sido rejeitada pela agência por ter ancas demasiado rechonchudas (como diriam estas miúdas de 20 anos: WTF?!). Agora, foi a vez de Charli Howard fazer a sua crítica pública, desta vez através do Facebook.

“A minha saúde mental e física é mais importante do que um número de roupa”

No texto que publicou, a modelo que foi acusada de ter demasiadas “curvas” começa por mandar à fava (ok, de forma mais veemente...) a sua “ex-agência” e faz críticas bem assertivas a toda a inconsciência de empresas do género que acabam por influenciar tanto estilistas, como a vida da modelos: “Recuso sentir vergonha ou ficar aborrecida todos os dias por nunca conseguir chegar aos vossos ridículos e inatingíveis padrões de beleza. Quanto mais vocês nos forçarem a perder peso, mais os designers vão ter de fazer roupas que caiam bem nesses nossos corpos e mais raparigas vão ficar consequentemente doentes. Isso deixou de ser o tipo de imagem que eu quero representar”, garante a modelo inglesa. “A minha saúde mental e física é mais importante do que um número de roupa, por mais que vocês o gostem de enfatizar de outra forma.”

Charli percebeu isto a tempo, mas basta estar atento aos números para ver que os distúrbios alimentares entre mulheres e jovens adolescentes (que, não podemos esquecer, são as aspirantes a modelos), continuam a ser um problema de saúde pública.

Num ato de consciência sobre esta realidade, França, por exemplo, avançou mesmo com uma proposta de lei que proíbe modelos excessivamente magras, impondo multas avultadas seja a designers, marcas ou agências de modelos que não assegurem os índices de massa corporal mínimos estabelecidos. Há quem tenha rebatido a ideia e quem fale de censura à magreza. De discriminação. Eu diria que o que está em causa não é de todo isso: endeusar pública e comercialmente uma imagem corporal que não se coaduna com um corpo saudável, esse sim é o perigo com que temos de lidar diariamente, numa sociedade que já vive por si só bombardeada por imagens irreais que são vendidas como realidade.

Ainda bem que há jovens mulheres de 23 anos, como Charli, que passam essa mensagem. Não há glamour nas passarelas que seja melhor ou mais importante do que a saúde a longo prazo. Tenho dito.