Siga-nos

Perfil

Expresso

A vida de saltos altos

A paternidade contada por um homem que não queria ser pai

  • 333

Phillip Toledano

Um recém-nascido de boca bem aberta e com a pele vermelha de tanto gritar. Porquê tanto choro? Para Phillip Toledano esta era uma eterna incógnita, que o deixava à beira da loucura quando a filha nasceu. Momentos de um misto de desespero com impotência, que o faziam sentir que nunca iria compreender aquele pequeno ser que trouxera ao mundo. Por brincadeira, decidiu imprimir essa imagem em pratos e, cada vez que alguém lhe perguntava como era a filha, apresentava-a dessa forma. A mulher não gostava, mas ele achava um piadão. É por isso que fez precisamente dessa fotografia a capa do seu site e livro “The Reluctant Father”, onde partilha 18 meses do lado menos romântico do tal milagre da vida.

"Quando vejo as fotografias antigas começo a perceber a minha metamorfose lenta e inevitável: de observador imparcial a participante entusiasta. De fotógrafo a pai". Esta é a descrição simples deste fotógrafo inglês, a viver em Nova Iorque, quando olha para o primeiro ano e meio de vida da sua filha. Estamos habituados a ler blogues de mulheres que partilham as suas experiências de maternidade, mas é raro encontrarmos um homem que esteja disposto a revelar ao mundo as suas emoções mais secretas relacionadas com a chegada de um filho. Phillip fê-lo durante 18 meses, de forma nua e crua, por vezes altamente irónica e deprimida, mas também afetuosa e comovente.

Phillip Toledano

Crianças = Material radioativo

Romatismos à parte, o fotógrafo inglês deixa claro desde o primeiro momento que ser pai nunca foi a sua vontade. Aliás, achava os filhos dos amigos um género de “material radioativo” com o qual nem sequer queria lidar. “Mas depois arranjamos uma namorada e começamos a ouvir a pergunta: ‘Então, quando é que te casas?´. Casamos. Depois de estarmos casados começam a perguntar: ‘Então, quando é que tens um filho?’. E acabamos por ter”.

Tinha 40 anos quando deu por si a ser pai de um desses pequenos “materiais raioativos”. “A verdade é que não senti uma ligação imeadiata. Quando dizia às pessoas que não estava a gostar de ser pai olhavam para mim como se fosse maluco. Há uma pressão enorme para dizermos frases como: ‘estou maravilhado com o milagre da vida, podia ficar a olhar para ela o dia todo’”. Não era o caso de Phillip. À falta de capacidade para conseguir lidar melhor com a chegada da filha, refugiou-se atrás da sua máquina fotográfica e decidiu construir uma relação através das imagens.

Phillip Toledano

No dia em que a filha lhe sorriu, ele chorou

As primeiras exprimem o impacto duro com a nova realidade familiar, com direito a gritos e choro imparáveis, noites sem dormir, o afastamento da mulher, a convivência difícil com aquilo a que ele chamava de “extraterrestre” e “com quem não tinha nada em comum”. São, regra geral, imagens que primam pelo exagero e pela distorção, pouco dadas às fotografias deliciosas de bebés que estamos habituados a ver os pais babados a tirarem.

O lado de pai babado chegou mais tarde, quando deixou de se sentir “um incapaz” (antes tinha medo de ficar sozinho com a criança e de não saber o que fazer). “Tinham-me dita que a minha vida ia mudar quando a Loulou começasse a sorrir, e tinham razão. O humor é a minha forma de me ligar ao mundo, é a minha linguagem”, conta Philip na legenda de uma foto da filha a sorrir, com duas esponjas de banho penduradas nas orelhas. “Quando a Loulou começou a falar ‘essa linguagem’ comigo foi extraordinário. Da primeira vez que lhe sorri e ela me sorriu de volta, chorei.”

Com a auto-segurança reforçada pela linguagem dos sorrisos, Phillip deixou-se deleitar pelo avassalador amor incondicional e as fotos começaram a ser mais leves, divertidas, afetuosas. Loulou deixou de ser o tal “exraterrestre”, para passar a ser o grande amor daquele pai.

As legendas são longas, escritas na primeira pessoa e um grau de honestidade que chega a ser incómodo quando o objeto de crítica é um bebé. Pelo caminho percebemos que a morte recente do pai de Phillip (quatro meses antes) influenciou a sua capacidade emocional e que o momento de ligação à filha o fez voltar ao seu passado. Ao amor incondicional do pai, que fotografou durante os seus últimos três meses de vida no projeto “Days With My Father”. E tal como nós, leitores, vamos suavizando a nossa indignação pela forma desligada com que fala da filha, também Phillip espera que um dia a filha o consiga compreender e aceitar os primeiros meses da sua vida em conjunto. Hoje não tem dúvidas quanto à ligação que os une para sempre: “Quando temos uma criança ela torrna-se o nosso passado, presente e future”, conclui o pai, que um dia foi relutante. Para espreitar e ler aqui.