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Expresso

Ela é a miúda que dá cabo dos miúdos. Literalmente

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Hoje em dia é conhecida como a miúda que dá cabo dos miúdos, mas demorou algum tempo até ter a atenção dos peritos em muay thai. PhetJee Jaa tem 13 anos e é hoje em dia considerada uma praticante prodígio da modalidade e um símbolo internacional da discriminação de género no desporto: o facto de ser rapariga pode ditar a falta de futuro para uma carreira que tinha tudo para ser promissora.

PhetJee Jaa começou a ver o seu tio dentro dos ringues de boxe desde muito pequena e começou a dar os primeiros pontapés com apenas sete anos. Depois de, literalmente, dar cabo de todas as outras meninas da sua idade, praticantes da modalidade, PhetJee Jaa começou a lutar contra meninos do seu escalão. De corpo franzino e totós no cabelo, fez-lhes frente com a postura de uma campeã e conquistou o seu lugar ao sol.

Vitória após vitória, foi ganhando a atenção da televisão nacional e dos fãs da modalidade. Toda a gente falava de PhetJee Jaa. Até que, de um dia para o outro, deixou de conseguir participar em combates da capital do país. A razão: é rapariga. E a cultura do muay thai é tão dominada pelo mundo masculino, que as mulheres nem sequer têm permissão para lutar nos ringues mais famosos do país, considerados praticamente sagrados, num género de ode à dignidade e poder do universo masculino.

Um símbolo da luta contra o sexismo no desporto

Ao fim de quatro meses sem conseguir voltar a combater contra rapazes - e sem qualquer outra menina da sua idade com quem disputar o cinturão do seu escalão – PhetJee Jaa viu-se estagnada. Solução: lutar contra mulheres de escalões bem mais acima do seu, comprometendo a capacidade do seu desempenho. Mesmo assim, PhetJee Jaa não desiste da sua carreira, até porque dela resulta um rendimento mensal que ajuda nas contas da família. Com o seu futuro em mente – e o da sua família também - o seu sonho é claro: “chegar aos ringues de boxe dos jogos olímpicos”..

Aos 13 anos esta menina tornou-se um símbolo da luta contra o sexismo, numa modalidade totalmente dominada por homens. Que convenhamos, não querem sequer correr o risco de, a longo prazo, verem mulheres como heroínas nacionais do muay thai, nem muito menos a conquistarem os cinturões que a história da modalidade dita que são apenas dignos de um homem. Este é apenas um caso que mediatiza a eterna a questão da discriminação de género no mundo desportivo, que vai bem para lá da realidade tailandesa.

Desde a distribuição desigual de recursos financeiros entre equipas masculinas e feminina, à remuneração inferior por um trabalho igual ou de valor igual baseado no género do atleta, passando pela escassa atribuição de cargos de direção de federações desportivas a mulheres (sabiam que 97% destes cagros são ocupados por homens?) esta é uma realidade comum um pouco por todo o mundo, sobre qual pouco se fala. E que quando é falada, regra geral ,se ouve o cliché: “ah e tal, as mulheres é que não ligam ao desporto”. Se tivessem oportunidades iguais de evolução de carreira, por exemplo, muito provavelmente as estatísticas seriam outras, digo eu.

No caso concreto da tradição que envolve a pequenita PhetJee, não me parece que a solução seja porem homens e mulheres a lutarem uns contra os outros em escalões mais altos. Tal como em muitas outras modalidades, as diferenças do corpo entre um homem e uma mulher podem comprometer a prestação e ditar desvantagens tanto para um lado, como para o outro. Contudo, permitir o acesso feminino aos ringues de renome e promover a modalidade entre as meninas e adolescentes, em vez de lhes cortarem as asas, faz-me sentido.

Nem todas as miúdas querem ou têm de ser bailarinas, tal como nem todos os rapazes têm de ser pugilistas ou jogadores de futebol. Enquanto for o género a ditar a possibilidade de sucesso e carreira de um atleta numa modalidade, algo está muito errado no mundo do desporto.