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Expresso

O lado provocador dos filhos do Islão

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David Tesinsky

Um casal gay a beijar-se com o símbolo do corão na mão, em busca de mudança e aceitação religiosa ao seu amor. Uma festa de máscaras onde homens e mulheres se beijam, fumam e bebem álcool livremente. Rapazes que fazem parkour em frente a uma mesquita. Uma mulher que posa toda nua apenas com um hijab na cabeça e um copo de vinho na mão. Outras três que estendem o dedo do meio em protesto, com uma mesquita enquanto cenário de fundo. Eis os filhos do islão que querem trazer sangue novo às tradições do Irão.

Num país onde, por exemplo, a homossexualidade dá direito a pena de morte e as mulheres não têm autorização sequer para para assistir a eventos desportivos com atletas masculinos, há toda uma geração que fervilha e desespera por uma revolução. Uma geração provocadora, informada, reativa, tolerante e inconformada, que não se cala, por mais que os seus desejos continuem a não ser ouvidos por quem gere o país sob a sombra do extremismo religioso. Algo que não define aquilo que o Irão é na sua essência.

David Tesinsky

Foi isso que o fotógrafo checo David Tesinsky tentou mostrar ao mundo através de um ensaio fotográfico fabuloso intitulado “Children Of Islam”, que descobri recentemente. Todas estas imagens revelam uma geração que tem muito de clandestina, mas também de ativista. Aliás, “os jovens iranianos estão entre mais politicamente ativos entre as 57 nações do mundo islâmico”, frisa Tesinsky no seu trabalho. Ao todo, mais de 50% da sociedade iraniana é composta por pessoas com menos de 30 anos, “que representam uma das atuais maiores ameaças a longo prazo ao atual governo teocrático.”

Humans of New York no Irão

Outro dos trabalhos que também espelhou isso foi a série de fotografias que o famoso Brandon Stanton fez no Irão no mês passado. O seu projeto “Humans of New York” – sobejamente conhecido e que recomendo a todos que acompanhem – começou este verão por fazer uma incursão ao Paquistão para fotografar e contar na primeira pessoa as histórias das suas gentes. Depois foi para o Irão e o resultado foi incrível, deitando abaixo algumas das ideias pre-concebidas que muitos de nós continuamos a ter sobre aquela sociedade.

Uma das imagens publicadas pelo fotógrafo americanoque mais me marcou foi a de uma jovem mulher, com o cabelo coberto por um lenço, mas de manga curta. A mensagem que ela passava era clara: "As coisas estão a ficar mais livres. Há uns anos eu não poderia vestir o que eu estou a usar agora sem levar uma enorme repreensão. Os lenços estão a ficar mais brilhantes e mais soltos. As mangas estão cada vez mais curtas. O riso está cada vez mais alto. Este é um país muito jovem. Mais de metade da população tem menos de 30. Vocês já viram um filho iraniano? São os filhos mais perniciosos do planeta. Se quiser que os filhos do Irão façam alguma coisa – diga-lhes para não o fazerem. Diga-lhes para não beijarem. Diga-lhes para não darem as mãos. Diga-lhes para se vestirem de preto. Diga-lhes para não usarem o Facebook. Este país está cheio de filhos travessos e curiosos. E as pessoas que fazem as regras estão a ficar cada vez mais velhas. E, tal como os pais iranianos, eles vão acabar exaustos”.

Esperemos que o desejo e certeza destes jovens seja verdade e que o Irão possa voltar a ser em breve o que foi há quarenta anos. Não é o conservadorismo religioso deste governo teocrático que deve definir o que este país é. Culturalmente o Irão não é o país retrógrada que, volta não volta, vemos nas notícias pelos piores motivos. Culturalmente, o Irão – antiga Pérsia – é também aquele país onde nos anos 60 e 70 as mulheres usavam mini-saias mais curtas do que em Paris. É um país de gente afável, culta, com um desejo de liberdade que fervilha por baixo dos véus. Há uma grande diferença entre o que o Irão é culturalmente - fruto da sua história - e aquilo que a religião, levada ao extremo, impõe à força ao seu povo nas últimas décadas.

Brandon Stanton

Nada como espreitar este dois trabalhos para perceber melhor isto. Encontram o ensaio “Children of Islam” aqui. Já o projeto “Humans of New York” no Irão pode ser visto aqui. Valem ambos muito a pena.