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Expresso

Os patrões cortaram-lhe a mão como castigo

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A história dantesca sobre os últimos meses da vida de Kasturi Munirathinam tem corrido o mundo nas últimas horas, mas o que muita gente ainda não conseguiu perceber é que casos como o desta empregada doméstica, de 58 anos, que foi brutalmente torturada pelos seus empregadores na Arábia Saudita, é apenas a ponta do iceberg de uma enorme realidade que afeta milhares de outras mulheres. Que vão em busca de uma vida melhor e que terminam em plena escravidão.

O caso da indiana Kasturi é semelhante a tantos outros: mudou-se em julho para a Arábia Saudita, para trabalhar em casa uma família com elevadas posses económicas. Foi proibida de manter contacto com a sua própria família na Índia, forçada a trabalhar quase o dobro das horas que estavam previstas inicialmente e mantida cativa dentro de casa, com raro acesso a comida. Foi aguentando as privações duríssimas à sua dignidade, até que começou o assédio sexual por parte do dono da casa. Não aguentou mais e decidiu fazer queixa. A esposa do tal homem achou que ela, sim, era a culpada pelos avanços do marido. Encurralada, Kasturi tentou fugir. Quando o fez, a mulher cortou-lhe uma mão como castigo.

Esta é a versão contada pela empregada doméstica, que está agora internada em estado crítico. Dos seus empregadores ainda pouco ou nada se sabe e, o mais provável, é negarem qualquer culpa no cartório. Embora o Ministério dos Negócios Estrangeiros indiano apregoe via Twitter que está em contato com as autoridades sauditas para chegar aos culpados “deste crime inaceitável”, a Arábia Saudita continua a fazer ouvidos moucas e desresponsabiliza-se. Tal como já fez em tantos outros casos. São raros os que chegam ao frenesim da comunicação social

Escravidão impune entre quatro paredes

Infelizmente, este tido de brutalidade contra as empregadas domésticas contratadas em regiões pobres e remotas de países vizinhos à Arábia Saudita já começa a ser um hábito. E é isso que não se percebe: estamos perante uma tentativa de homicídio, tortura continuada e um processo de escravidão. Crimes internacionalmente punidos por lei, previstos na Convenção das Nações Unidas contra a Tortura e Outras Penas ou Tratamentos Cruéis, Desumanos ou Degradantes. Meus senhores, estamos à espera do quê para travar a proliferação deste tipo de crimes sobre os quais toda a gente fala, mas tão pouco se faz ou tem feito?

No fim do ano passado as Nações Unidas apoiaram o projeto fotográfico do multi-premiado Steve McCurry, intitulado “Behind Closed Doors”. Uma série de imagens que conta as histórias de diversas empregadas domésticas que sofreram as maiores atrocidades nas mãos dos seus empregadores. Em comum todas tinham o sonho de uma vida melhor e vinham de famílias carenciadas. Abandonaram as suas aldeias e vilas com promessas de emprego bem remunerado nas grandes cidades de outros países que não os seus. Ao chegarem ficam sem documentação, ou seja, como se estivessem clandestinas. Na sua maioria eram nepalesas, indonésias, indianas e filipinas, e acabaram em países como Arábia Saudita, Malásia ou China.

Na altura, a intenção do trabalho era sensibilizar os governos dos países envolvidos para terem uma ação mais forte e eficaz no que respeita à criação de leis que protejam este tipo de trabalhadoras. As provas estão à vista, em imagens que registam até onde pode ir a crueldade humana. Já tinha falado disto por aqui, mas nunca é demais relembrar. Até porque pelos vistos – e quero acreditar que todas as autoridades envolvidas têm plena noção disto – não basta uma exposição para agitar consciências, por mais chocante que ela seja (podem espreitá-la aqui).

Sanções pesadas e um controlo mais rigoroso poderiam ser um ponto de partida para pôr pelo menos um travão a esta realidade.

Mutilada pelos seus patrões, em Hong Kong, Anis é uma das várias mulheres fotografadas por Steve McCurry

Mutilada pelos seus patrões, em Hong Kong, Anis é uma das várias mulheres fotografadas por Steve McCurry