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Expresso

A infantilização da mulher está no meio de nós?

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Uma mulher de chucha na boca, com um bibe aos quadradinhos e uma fita cor-de-rosa na cabeça, despeja pó de talco em cima de si mesma. A imagem é bizarra, desconcertante até, mas tem um objetivo claro: criticar a infantilização da imagem feminina. Foi assim que ontem a jovem e provocativa artista Katy Dyes, recentemente formada pelo Royal Conservatoire of Scotland, subiu ao palco do Camden Peoples Theatre para dar vida à performance “Baby Face”.

“Numa era em que a pedofilia já é, felizmente, explicitamente condenada, continuamos a sexualizar a imagem das crianças e adolescentes nos media e a promover uma imagem infantil das mulheres”. Tal como em palco, também fora dele Katy Dye parece ter poucas papas na língua e em diversas entrevistas fez críticas ferozes não só à forma como as mulheres continuam a ser incentivadas a manter uma aparência jovem – por vezes demasiado – para se manterem dentro dos ideais de beleza estabelecidos pela nossa sociedade, como também ao facto de as adolescentes serem amplamente incitadas pela cultura pop a parecerem mulheres, quando muitas vezes ainda não têm mais do que idade para estarem em casa a brincar com bonecas.

Lembram-se daquele anúncio da Miu Miu que no início deste ano deu que falar, ao usar a imagem de uma modelo de 22 anos sem maquilhagem, em pose de adolescente tipo Lolita? Aquele que acabou por ser censurado pela autoridade britânica que regula a publicidade? É apenas um exemplo do tipo de imagem que Katy Dyes critica e revela ser altamente perigosa tanto para as mulheres, como para as adolescentes.

As mulheres têm de parecer eternas adolescentes?

Este paradoxo levou Katy Dyes a explorar em cima do palco as diversas formas como esta fronteira, cada vez mais ténue, se cruza no dia-a-dia de muitas mulheres, em pequenos pormenores que já se tornaram dados adquiridos e que ninguém questiona. Por exemplo, o que leva a que sejamos incentivadas a começar a usar cremes para as rugas como prevenção logo desde os vintes? Será que a rugas da idade nos vão ‘salvar’ dos supostos padrões de beleza? Teremos de parecer umas eternas adolescentes para os atingir? Por que é que é continua a ser esperado que uma mulher fale com a voz a tremer, como uma menina, em momentos de stress? E por que é que em contextos tão diferentes, quanto o profissional ou o pessoal, nos continuam a chamar “miúda” durante anos a fio? Puro paternalismo, baseado exclusivamente nas diferenças de género? Ou será que é desprestigiante (eu diria antes ameaçador) assumir-se aquela pessoa como uma mulher feita?

Questões de Katy Dye levanta num formato complexo, que confronta o espectador com a imagem levada ao extremo de uma mulher que parece um bebé. Com isto pretende redefinir a percepção da figura feminina nos tempos de hoje, reduzindo a importância da eterna imagem de juventude ao longa da vida. Não acho que este espetáculo algum dia venha a passar pelos palcos portugueses, portanto deixo-vos aqui a página da artista e em baixo o vídeo que serve de teaser para a performance “Baby Face”. Dá que pensar, pelo menos a mim deu.