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Expresso

Podem parar de me perguntar quando é que decido engravidar?

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Faço parte daquela geração que já passou dos 30 e que não tem filhos. Faço também parte daquele grupo de mulheres que até estão numa relação duradoura, com uma situação económica estável e sem problemas de saúde de maior. Posto isto, volta não volta (e estas voltas acontecem muito frequentemente), surge a questão: mas afinal quando é que engravidas? A resposta é simples: vocês não têm nada a ver com isso.

Depois do clássico “quando é que te casas?”, durante os vintes, esta é a pergunta que se impõe à larga maioria das mulheres quando passam dos trinta. Como se nos transformássemos num bicho estranho por não estarmos a contribuir para a taxa da natalidade, principalmente quando a nossa vida aparentemente até “está tão bem encaminhada”. O que muita gente não percebe é que esta pergunta pode ser muito inconveniente, ou até mesmo dolorosa. E foi isso que Emily Bingham, 33 anos, quis mostrar ao publicar no seu perfil de Facebook uma foto de uma ecografia, com um texto que se tornou viral nas últimas duas semanas.

Se ainda não se cruzaram com ele, deixo-vos as primeiras palavras desta jornalista de Michigan: “Olá a todos!!! Agora que consegui captar a vossa atenção com esta ecografia aleatória que saquei do Google, vou usá-la como um lembrete para o facto de que os planos reprodutivos dos outros NÃO SÃO DA VOSSA CONTA”. Emily relembra que antes de se fazer a típica pergunta sobre quando é alguém começa uma família, deveríamos todos ter em conta que há imensos casais com problemas de fertilidade, muitas vezes há anos em tratamentos deveras dolorosos, tanto fisicamente como emocionalmente. Por cá, por exemplo, um estudo realizado pelo presidente do Colégio de Especialidade de Ginecologia e Obstetrícia da Ordem dos Médicos e pela investigadora Ana Santos, revelou que nove a dez por cento dos casais (entre 260 e 292 mil casais portugueses) têm problemas de infertilidade ao longo da vida. Acreditem: ninguém vai andar a apregoar aos quatro ventos que tem este problema, portanto pensem duas vezes antes de pressionar um casal com esta pergunta tão desnecessária. Quando eles engravidarem, vocês irão saber.

Não esquecer: há quem simplesmente não queira ter filhos

Mas há mais razões: a jornalista americana relembra também a quantidade crescente de mulheres que abortam durante as primeiras semanas da gravidez (aquelas em que ainda é suposto manter segredo) e que, mais uma vez, nunca chegam a partilhar com ninguém o que aconteceu. Convenhamos, sejam seis ou dezasseis semanas, é sempre uma perda dolorosa. Emily relembra ainda que há imensas pessoas com problemas de saúde que não são compatíveis com uma gravidez saudável, tal como há pessoas que estão a passar por fases mais stressantes das suas vidas profissionais e por problemas económicos, todos eles fatores que pesam aquando de uma gravidez planeada. Já agora, também convém não esquecer: há muitas pessoas que simplesmente não querem ter filhos. E ninguém tem nada a ver com isso.

“Há perguntas à partida inocentes que podem causar sofrimento, stress e frustração extra, lembrem-se disso quando decidirem fazer esta”, frisa Emily no seu post viral. Um texto que já conta com 76 mil partilhas e mais de 57 mil comentários, na sua larga maioria de pessoas que aplaudem as palavras da jornalista e que se revêm nas múltiplas situações que ela expõe.

Nem tudo se resolve com umas férias a dois, como sugere esta (à partida) divertida campanha de uma agência de viagens dinamarquesa que partilho convosco debaixo do texto. Um belo exemplo de como as questões da fertilidade são muitas vezes reduzidas à falta de vida sexual entre um casal. Um erro. Quando tiverem a ‘pergunta dos filhos’ debaixo da língua, lembrem-se das palavras de Emily Bingham: “Metam-se na vossa vida, simplesmente vocês não têm nada a ver com isso.”