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Expresso

Elas não têm medo de vexar molestadores em praça pública

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O que é que uma mulher indiana pode fazer quando sabe que uma menina de dez anos foi violada em grupo por polícias, dentro de uma carrinha? Na larga maioria das vezes, nada. Mas a Brigada Vermelha quer e está ativamente a tentar mudar isso desde há cinco anos. Praticamente todas as mulheres deste grupo de intervenção, criado no norte da Índia, foram abusadas no seu passado. Algumas foram vítimas de assédio, outras vítimas de violações, muitas vezes em grupo, outras tantas repetidamente. Todas elas tentam ultrapassar diariamente o trauma, mas não o vivem em segredo: fizeram queixa às autoridades, partilham-no com um grupo de apoio e tomam a iniciativa de tentar fazer justiça quando o mesmo acontece com outras meninas, adolescentes e mulheres da sua região.

A história real da denominada Brigada Vermelha foi filmada pela multi-premiada documentarista Jayisha Patel e o resultado está à vista no filme “Power Girls”. Durante vários meses, Patel acompanhou as reuniões deste grupo de Lucknow, as suas ações de sensibilização para as questões do assédio sexual na Índia, as suas verdadeiras emboscadas de humilhação pública a homens que molestaram meninas e as suas aulas de artes marciais, onde ensinam o sexo feminino a defender-se.

O resultado é inquietante e traduz de forma muito crua quão longe a discriminação de género pode ir naquele país. Aliás, os números também não enganam: estima-se que a cada hora que passa, 26 mulheres indianas são alvo de violência.

Uma década, dois milhões de crimes denunciados

Um estudo levado a cabo em Deli demonstra que, em 2010, a gigante percentagem de 66% das mulheres daquela cidade tinham sido assediadas sexualmente durante os últimos dozes meses. Depois da violação coletiva que em dezembro de 2012 tirou a vida a uma estudante de medicina naquela mesma cidade, o número de denúncias aumentou 18% em todo o país. Hoje contabilizam-se oficialmente mais de dois milhões de crimes contra as mulheres indianas, praticados na última década, e estima-se que a cada dois minutos que passam alguma mulher é exposta a uma situação de perigo.

A violência extrema motivada por crueldade do marido e/ou outros parentes está no topo dos crimes, com dez casos por hora. De acordo com vários estudos das Nações Unidas, 70% das mulheres indianas ao longo da sua vida são alvo de violência física e sexual por parte de um parente próximo. Posto isto, é mesmo de fazer vénia às jovens mulheres que fazem parte desta Brigada Vermelha, criada por Afreen Khan quando o pai lhe sugeriu que deixasse a escola para evitar continuar a ser assediada.

O grupo contou com o apoio de outras ONG’s e cresceu nos últimos anos. Hoje, refletindo sobre os números anteriores, não é preciso pensar muito para constatar que é precisa uma enorme dose de coragem para levar a cabo este tipo de iniciativa de patrulhamento nas ruas, com tentativas quase sempre vãs de sensibilização do público masculino. À falta de resultados com os homens, dedicam-se a ensinar técnicas de auto-defesa às mulheres, a dar palestras em escolas para sensibilizar as meninas desde pequenas para o que é ser alvo de abuso e a prestar ajuda jurídica e psicológica às vítimas de ataques. Nada como ver este excerto do filme para perceberem melhor o trabalho destas mulheres à força, que por cá não teriam idade para serem mais do que miúdas ainda.