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Expresso

Ameaçada e vexada por partilhar foto de menstruação

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Como é que uma mulher que partilha no seu perfil de Instagram uma foto do seus dedos com sangue acaba a ser molestada por centenas de pessoas, que lhe fazem ameaças e lhe pedem inclusive que se mate pelo que fez? Simples: porque o sangue que Louelle Denor tinha nos dedos era da sua menstruação. “Ui, que nojo”, dirão provavelmente muitos dos que estão a ler isto. E o problema é precisamente esse. Pelos vistos, o ‘sangue menstrual’ – chamemos-lhe assim - é mais nojento do que o que escorre de uma ferida num dedo.

Vamos por partes: quando esta americana ouviu falar de casos de mulheres que viram as suas fotos serem censuradas por partilharem imagens relacionadas com a sua menstruação (embora estas não contivessem qualquer cariz sexual associado ou nudez explícita), decidiu fazer uma experiência para ver as reações desta rede de partilha fotos e dos seus utilizadores.

Louelle tirou uma fotografia dos seus dedos a segurarem um copo menstrual depois de usado. Como é óbvio, tanto o objeto como os dedos tinham manchas de sangue. Obviamente também, sangue que saiu da sua vagina. Na legenda da foto explicou a razão que a levava a partilhar tal imagem: “Recentemente chamou-me à atenção o facto de haverem contas de mulheres que são banidas por mostrarem sangue menstrual (e não nudez). Isto é um assunto mesmo muito lixado. Se fossem imagens de sangue de uma laceração num dedo, não haveria problema. Sim, isto é sangue da minha vagina. Acontece todos os meses. Estou a segurar num copo menstrual, algo que é fabuloso mas um bocadinho complicado de retirar.”

“Devias levar com sémen na cara como castigo”

Desta vez o Instagram percebeu que não há nada de ofensivo ou impróprio na imagem. Mas os seus utilizadores pintaram a manta, revelando mais uma vez que a menstruação continua a ser um tema controverso entre muitos de nós. Frases como “devias matar-te” ou “estas feminazis deviam ser metidas debaixo de um chuveiro que lhes despejasse sémen masculino na cara” fizeram parte do chorrilho de ofensas de que esta mulher foi alvo. Havia necessidade? Não me parece. Não há justificação para este tipo de agressividade cuspida num teclado e que o anonimato da Internet permite. Somos todos uns campeões quando estamos atrás de um ecrã.

Claro que as regras do bom-senso não nos levam a andar a partilhar imagens da nossa menstruação nas redes sociais por dá cá aquela palha. É algo íntimo e - todos concordamos - muito gráfico numa imagem. Tão gráfico quanto um dedo cortado a jorrar sangue, que isto fique claro. Também é sensato não o partilharmos. Mas não é por ser sangue menstrual que ganha outro estatuto. Se fosse uma foto de um vagina ensanguentada então a conversa, sim, seria outra, uma vez que já entravamos no contexto explícito dos órgãos sexuais, algo que não é permitido nas redes sociais.

Num texto posteriormente partilhado num blogue, a própria autora da imagem explica que tirar fotos das suas menstruação não é o que a move: “Nunca tive um desejo especial de tirar selfies com o sangue que sai da minha vagina, mas eu tinha um objetivo claro ao fazê-lo: mostrar que as políticas do Instagram sobre este tipo de assuntos são bizarras e indesculpáveis”. Mas desta vez foram os utilizadores que se comportaram de forma bizarra, aproveitando para entrar num longa discussão sobre o feminismo dos tempos modernos.

Já fizeram uma pesquisa com a hashtag #bloody?

A discussão vai longa, com mais de dois mil comentários deixados. Disparam-se ofensas gratuitas, ameaças, disparates pegados. Tudo por causa de uns dedos com sangue que, neste caso, era menstrual. Como diria uma utilizadora: “Se querem comparar isto com cocó, muito bem. Mas imaginem que só as fotos de cocó dos homens eram censuradas e que as das mulheres podiam continuar online? Não era estranho?”

Curioso que se fizermos uma pesquisa com o hashtag #blood ou #bloody surgem centenas de outras imagens que envolvem partes do corpo com sangue. Muitas delas de revirar estômagos mais sensíveis, como por exemplo as da mão de um homem a sangrar dos nós dos dedos em ferida, de um rapaz com sangue a escorrer do nariz ou a de um chão em mosaico cheio de poças de sangue patinhado. Mas nenhuma parece gerar tanta controvérsia quanto a que envolve a vagina daquela mulher. Que, já agora, nunca apareceu em lado nenhum a não ser na imaginação de quem espreitou a foto.