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Expresso

Mulheres banidas numa ‘toca menstrual’? Sim, acontece

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Não se deve lavar a cabeça durante o período senão ele pára. Também não se deve pisar terra de cemitério durante a menstruação, sob risco de ficarmos possuídas pelas almas penadas que por lá habituam. Ah, e se tentarmos fazer uma maionese o mais certo é mesmo que ela fique talhada. Crenças e mitos sobre o período menstrual que, por incrível que pareça, ainda passam de geração em geração até aos dias de hoje.

Felizmente, por cá as crenças religiosas em torno disto já não ditam regras sobre o quotidiano da mulher, como foi acontecendo ao longa da história da humanidade. E com mais ou menos formação disponível, todos percebemos o significado daqueles dias do mês. Porém, há sítios no mundo onde ainda se acredita que uma mulher fica ‘impura’ (enfim, seja lá o que isso for) enquanto está menstruada, e pôr em risco as suas vidas é um mal menor perante a possível fúria dos deuses.

Se não acreditam, espreitem o trabalho que hoje partilho convosco sobre a realidade vivida em algumas aldeias recônditas do Nepal, onde as mulheres são banidas das suas próprias casas durante a menstruação, obrigadas a dormir ao relento, com temperaturas baixíssimas. Para algumas, o ritual chega mesmo a ser fatal. É isto que relata o documentário multimédia “Banished: why menstruation can mean exile”, feito pelo jornalista Dirk Gilson para a AlJazeera.

É tradição ilegal e chama-se chhaupadi

A história começa com Sabrita Bogati, uma mulher de 30 anos que está a preparar uma cama com mantas grossas dispostas no chão, para dormir durante cinco dias. Enquanto estiver com o período, a pequena “toca menstrual” construída em frente à sua casa será a sua morada, dia e noite. Há quem lhe vá levar comida, mas ninguém lhe toca. Durante esses cinco dias, a população de Marku - uma aldeia a oeste do Nepal - acredita que é melhor manter uma distância de segurança.

Mesmo quando se juntam várias mulheres menstruadas, nenhuma se toca. Estão supostamente impuras. E enquanto assim estiverem passam as restrições que forem precisas para que ninguém seja “contaminado”. Fome e frio são algumas delas. Mês após mês, seja verão ou inverno, faça sol ou faça chuva torrencial.

Estas restrições são baseadas numa tradição religiosa secular apelidada por chhaupadi, que em 2006 o Supremo Tribunal do Nepal declarou ser ilegal. Contudo, em zonas remotas como Marku, a tradição continua bem viva. Nem todas as mulheres têm uma “toca menstrual” para se enfiarem nestes dias, portanto às vezes partilham uma. Chegam a ser cinco, todas encolhidas para caberem. Nenhuma gosta daquele ritual, mas nenhuma algum dia ousou recusar-se a fazê-lo. Mesmo sabendo que existem casos reais de mulheres mortas pelo frio e pelos ataques de animais, ou violadas durante estes dias de isolamento. É assim que supostamente os deuses mandam fazer e a falta de formação leva-as a nem sequer questionarem porquê.

O trabalho de Dirk Gilson acompanha a jornada não só destas mulheres, mas também de Pema Lhaki, uma ativista que se dedica há dez anos a combater os tabus gerados em torno da menstruação nas pequenas aldeias das montanhas do Nepal. Sítios onde a informação não chega e que, quando chega, é recebida com desconfiança. Vale a pena ver, ler e ouvir. Basta clicarem aqui.

Mas não é só nos confins do Nepal que a menstruação continua a parecer um bicho papão. Segunda-feira conto-vos outro episódio, mas passado no dito mundo civilizado. Não envolve tocas menstruais, mas não vão faltar telemóveis, redes sociais e ameaças de morte.