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Expresso

A Gigi Hadid é uma Miss Piggy

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Sugiro fazermos este pequeno jogo à distância: quando olham para a imagem em cima, o que é que veem? Escrevam dois ou três adjetivos e guardem-nos. Entretanto revelo-vos o que que passou pela cabeça de inúmeros seguidores das páginas da Versace e da modelo Gigi Hadid no Instagram: “Miss Piggy”, “badocha”, “más pernas”, “demasiado gorducha para desfilar”, “baleia”, “vaca gorda” e “Já viram aquele estômago?” são algumas das descrições. Sou só eu que não consigo perceber como é que alguém é capaz de cuspir apreciações do género quando olha para a imagem desta modelo?

Aqui n’A Vida de Saltos Altos o tema body shamming não é novo, mas não resisto a partilhar convosco mais esta peripécia que envolve os meandros do mundo da moda. Gigi Hadid, modelo norte-americana de 20 anos, tem sido recorrentemente acusada na Internet de estar demasiado gorda para ser modelo de alta costura. Ora bem, eu olho para esta foto e só me ocorre a mesma frase que via uma adolescente escrever em resposta aos adjetivos anteriores: “Se isto é ser gorda, então adorava ser gorda como ela”.

Brincadeiras à parte, é mesmo muito grave que esta seja a percepção de centenas de internautas que, no seu feliz anonimato, não se coíbem de criticar o tamanho corporal e a forma de andar tão própria da modelo. Com 17 anos Gigi já era cara de campanhas de marcas de renome. Tem conseguido impor o seu estilo e é hoje um ícone internacional. Eu confesso que quando olho para ela no meio das outras modelos não consigo ver uma diferença por aí além, porém, quando se fala da indústria da moda, 1 ou 2 centímetros devem fazer toda a diferença. Seja como for, Gigi tem carisma e voluptuosidade, uma mistura vencedora diria eu.

“Sim, eu tenho mamas, tenho abdominais e tenho rabo”. So what?

Estamos numa fase em que, cada vez mais, a indústria da moda se esforça por transmitir ideais mais inclusivos no que diz respeito à beleza. São também muitas as celebridades que tentam promover imagens corporais realistas, partilhando fotos suas sem maquilhagem ou de biquíni, sem retoques de photoshop. Agora chegou a vez de Gigi Hadid também o fazer.

Uma amiga dizia-me ontem que quase se sentia insultada por ver que uma mulher como esta modelo - com aquele corpo tão próximo da suposta “perfeição” que nos entra pelos olhos há anos - se possa sentir magoada pelas críticas. Como se o facto de ela se deixar afetar nos pusesse a todas nós, mulheres, acima de umas calças nº 36, no patamar do “nunca poderei ser considerada gira”. Eu não concordo.

Já nem vou ao facto de a beleza ser um conceito demasiado lato, com uma percepção totalmente individual, vou apenas a um ponto: enquanto adultos, todos nós temos uma cota parte de responsabilidade no que toca a promover entre os adolescentes uma perspectiva mais saudável e realista quando falamos de imagem corporal. Gigi tem apenas 20 anos. Convenhamos: é pouco mais do que uma jovem mulher. Quem melhor que ela para fazer a mensagem chegar às miúdas da idade dela?

No seu perfil de Instagram, a modelo partilhou um texto onde deixou claro. “Não, eu não tenho o mesmo tipo de corpo que muitas outras modelos. Represento uma imagem corporal que antes não era aceite pela alta costura, mas sou apoiada por designers, estilistas e editores. Se eu não tivesse o corpo que tenho, também não teria toda esta carreira”, frisa a jovem. “Sim, eu tenho mamas, tenho abdominais, tenho rabo. E não são os vossos comentários que me vão fazer querer mudar o meu corpo. Se não querem fazer parte da mudança, pelo menos estejam abertos a ela, é inegável que ela já está a acontecer.”

Gostava de acreditar que sim, mas quando me cruzo com jornalistas de moda portuguesas que dizem à boca cheia que não há nada de sexy no rabo da Beyoncé, por exemplo, percebo que esta é uma mudança que vai demorar muito tempo a acontecer. Como diria a minha mãe: “ele há gostos para tudo”. E comentários de mau gosto também.