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Expresso

Comboios só para mulheres em Londres: solução para o assédio sexual?

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O comboio e o metro do Reino Unido podem passar a ter carruagens só para mulheres. Estava eu em viagem de comboio durante as férias quando esta notícia me entrou pelos olhos. E embora quase ninguém tivesse feito grande alarido, fiquei chocada. Hoje voltei a lembrar-me dela ao ler o primeiro discurso de Jeremy Corbyn enquanto líder do Partido Trabalhista. Algo não bate certo: ontem, durante o seu discurso, apelou ao fim de políticas “machistas e abusivas” no país; há um mês, sugeria em praça pública a segregação de género nos comboios, como forma de combater o número crescente de casos de assédio sexual nos transportes públicos.

Na altura, o político inglês desculpou-se e garantiu que tinha boas intenções, uma vez que era uma tentativa de resposta aos números recentemente revelados: entre 2014 e 2015, foram feitas 1399 denúncias de assédio sexual nos transporte públicos do Reino Unido, com um aumento de 25% face ao ano anterior. Mas separar homens e mulheres pode ser uma solução?

Não, não e não. A segregação de género como meio de prevenir casos de assédio sexual é simplesmente voltar atrás no tempo. Um político que agora discursa em prol de “políticas mais inclusivas” e pelo “fim da discriminação” deveria saber disso. Além de dar um eterno cariz de impunidade a quem o faz, é colocar-nos a todos no patamar de termos de viver com isso como uma constatação. O que é ofensivo tanto para homens, como para mulheres. Por um lado, põe todos os homens no papel de potencial agressor, por outro, põe a mulher no papel da pessoa que tem de se sentir responsabilizada pela sua própria integridade física e moral quando faz algo tão simples quanto apanhar um transporte público.

“Ela estava mesmo a pedi-las”

O assédio sexual é ilegal, e a solução para o combater não passa certamente por separar homens e mulheres, mantendo-as fechadas numa carruagem cor-de-rosa longe dos ‘bichos papões’. Não é assim que se promove maior segurança em nenhuma cidade do mundo. Aliás, se olharmos para os países onde este sistema é real – como Índia, Egito, Paquistão ou Rússia – a larga maioria são sociedades altamente patriarcais e, consequentemente, eternas violadoras dos direitos das mulheres.

Qualquer dia estamos também perante uma realidade em que é preciso as mulheres não andarem sozinhas na rua, nem muito menos saírem à noite ou vestirem roupas mais decotadas, sob pena de serem molestadas. É tão simples quanto isto: o assédio sexual não pode ser visto com algo inevitável, nem muito menos desvalorizada a sua gravidade.

Se tudo isto for para a frente significa que qualquer mulher que decida ir numa carruagem mista à noite pode então ser alvo de um ataque, sob a desculpa: “Ela é que escolheu ir ali”? Ou pior, sob a mítica frase que culpabiliza a vítima: “Ela estava mesmo a pedi-las”? Como se tornássemos normal que a líbido masculina seja tida como algo tão feroz e incontrolável que as mulheres é que têm de ter cuidado e não se meterem a jeito. Lá está, ofensivo para ambos.

43% das mulheres britânicas são assediadas frequentemente

Já que o tema ‘assédio sexual’ foi posto em cima da mesa e que agora Jeremy Corbyn está num cargo de liderança, espero que pense em ideias e medidas concretas para o combater: num inquérito alargado feito em 2014 também se chegou à conclusão de que 43% de mulheres britânicas, entre os 18-34 anos, são frequentemente assediadas na rua. Educar as gerações mais novas sobre quão errado e nefasto é este tipo de comportamentos pode ser um ponto de partida com resultados a longo prazo. Mas não só.

Se as forças de segurança estiverem presentes e agirem devidamente (principalmente nestes locais onde as estatísticas revelam, ano após ano, que é preciso reforço de controlo), se as vítimas sentirem que lhes dão credibilidade quando apresentam queixa (atenção que o número de denúncias de casos do género só aumentou no Reino Unido durante o último ano porque houve uma campanha nesse sentido), se existirem sanções reais e pesadas a molestadores (elevar o assédio a crime sexual talvez ajudasse), provavelmente a realidade seja outra.

O caminho para a mudança parece-me ir mais nesta direção do que na da proposta de segregação de género e perpétua impunidade. Muito sintomático de quão sexista permanece o tal “primeiro mundo” em que vivemos é precisamente o facto de esta hipótese ainda ter sido posta em cima da mesa numa Inglaterra do século XXI. Pior: por um político que é sobejamente conhecido como ativista dos direitos humanos nas últimas três décadas.