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Expresso

A violência contra as mulheres é a vergonha da Austrália

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Números reais: 63 mulheres foram assassinadas pelos seus parceiros no último ano. Uma em cada seis são alvo de violência física ou sexual extrema por parte do parceiro, pelo menos uma vez na vida. Mais de 73% destas vítimas são atacadas mais do que uma vez. E um total de 58% dessas mesmas mulheres nunca chega a contactar as autoridades, nem a procurar ajuda médica. Dados estatísticos da realidade australiana, onde o Governo acaba de anunciar um pacote de 62 milhões de euros para a luta contra a violência doméstica e familiar.

É recorrente esta questão surgir-me em conversa e são muitas as pessoas que não conseguem acreditar que ainda assim seja em países mais desenvolvidos. Contudo, basta procurar dados oficiais para tirar dúvidas: a violência contra as mulheres, infelizmente, está mesmo no meio de nós. Preconceito ou simples constatação do que nos chega através de notícias de homicídios hediondos de mulheres nestas regiões, é muito comum pensarmos automaticamente em países como Índia, Paquistão, Afeganistão ou Arábia Saudita. Mas no que toca à violência doméstica, a realidade vai muito mais além e tem contornos graves que tanto afetam países subdesenvolvidos, como grandes exemplos de desenvolvimento mundial.

A Austrália é um desses casos e as declarações feitas na semana passada pelo primeiro-ministro australiano, Malclom Turnbull, são claras: “A violência contra as mulheres é uma das grandes vergonhas da Austrália. É uma desgraça nacional”. Uma boa parte do dinheiro será investido em maior e melhor formação às entidades que lidam de perto com as vítimas, desde a polícia, a assistentes sociais, pessoal dos serviços de emergência e funcionários hospitalares, de modo a que mais facilmente reconheçam os sinais de violência doméstica e saibam como atuar.

Vão ser ainda distribuídos mais de vinte mil telemóveis com medidas de proteção específicas de localização e emergência a mulheres que estejam a tentar sair de uma situação de abusos e introduzidas ações especiais dedicadas às populações de zonas mais remotas do país. Um plano governamental que deverá decorrer ao longo dos próximos três anos.

O que muitos jovens australianos acham disto? A resposta é assustadora

O objetivo é assumidamente fazer com que as mulheres se sintam seguras “em casa, na rua e na Internet”, mas a mim parece-me que a educação seria um ponto fulcral a tocar, numa sociedade onde a necessidade mudança de mentalidades é urgente. Não podemos esquecer que, por mais evoluída que a Austrália à partida possa parecer, tem entre mãos um problema grave de consumo de álcool (mais de 400 pessoas são assistidas diariamente nos hospitais do país por causa de problemas relacionados com álcool). E que mais 25% dos jovens australianos considera justificável que um homem que tenha bebido bata numa mulher. No mínimo, preocupante.

E porque nunca é demais relembrar, por cá a realidade da violência contra as mulheres não é muito melhor. Só no primeiro semestre de 2014, a UMAR contabilizou 31 mulheres mortas em situações de violência doméstica e as autoridades portuguesas tinham recebido cerca de 13 mil participações. Já no maior inquérito europeu sobre o tema - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que, nos 12 meses anteriores, 13 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas fisicamente e 3,7 milhões sexualmente, ambas as situações dentro de relações amorosas.

Como diria o primeiro-ministro australiano: “Toda a violência contra as mulheres começa com o desrespeito pelas mulheres. Isso merece tolerância zero”. Ninguém deveria esquecer isto. Eu só trocaria a palavra “mulheres” por “pessoas”.