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Expresso

A vida de saltos altos

Uma mulher, uma câmara e uma tremenda dose de coragem

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Uma mulher e uma câmara podem fazer a diferença quando falamos do mundo rural do Paquistão? A curto prazo talvez não. Mas nem por isso Samar Minallah Khan desiste de contar histórias que possam sensibilizar a opinião pública dentro e fora do seu país para as questões do casamentos forçados, do trabalho infantil de meninas e dos pactos de honra em que dívidas são saldadas com a oferta de uma filha.

No mês passado a antropologista e documentarista foi premiada em Washington pela sua audácia e coragem no que toca a dar voz e cara às inúmeras violações do direitos humanos que continuam a ser perpetuadas no seu país. Um país que é o terceiro mais perigoso do mundo para uma mulher viver. Depois de ter estudado em Inglaterra, Samar Minallah Khan voltou ao Paquistão para esmiuçar os contornos desta violência e tentar fazer a diferença no futuro das mulheres e meninas paquistanesas. Através da sua câmara mete o dedo na ferida e, infelizmente sem surpresas, recebe constantes ameaças de morte.

Isso não a retrai e durante mais de dez anos dedicou-se a trabalhar estes temas na perspectivas das mulheres, contando as suas histórias na primeira pessoa em entrevistas perturbadoras a meninas e mulheres forçadas a casamentos indesejados, atacadas com ácido por quererem estudar, trocadas como objetos em disputas entre famílias rivais ou reduzidas à categoria de escravas enquanto serventes. Graças a si e ao impacto internacional do seu trabalho, já houve inclusive mexidas em algumas lei no Paquistão, que visam a proteção das mulheres.

“A luta pelo fim da violência contra as mulheres tem sido travada maioritariamente por ativistas mulheres. São elas que tem ao longo dos anos têm tentado sensibilizar e influenciar os decisores políticos para estas questões, mas o que já se atingiu não é suficiente”, explica a documentarista. E foi por isso que no seu último trabalho, que tantos aplausos recebeu em Washington, decidiu dar a volta à questão e focou-se nos homens.

Homens que são heróis nas vidas das suas mães, irmãs e mulheres

Em vez de se focar nos que cometem tais crimes, focou-se antes naqueles que continuamente vão fazendo a diferença dentro do universo rural e conservador do seu país. Numa tentativa de que os bons exemplos, elevados à categoria de heróis, possam influenciar outros homens a quebrar as tradições seculares que não são mais do que tremendas violações dos direitos humanos. “Ao contrário do que possamos imaginar, também os homens sofrem muita pressão para desafiar estas normas”, frisa a documentarista. “Contrariar as expectativas da sociedades é algo de homens de muita coragem.”

Um desse exemplos é Noman, um jovem que após terminar a escola secundária decidiu pedir à família que a irmã mais nova tivesse a mesma oportunidade. Mesmo quando todos acharam que não fazia sentido, o jovem adolescente insistiu até conseguir convencer os pais de que a educação da irmã seria uma mais valia. Para evitar represálias – como ataques com ácido sulfúrico – passou a ter a tarefa diária de levar a trazer de mota. “O sucesso de uma mulher, é o sucesso de todos nós. Incluindo do futuro da nossa vila”.

Outro exemplo, de outra geração, é Shakeel. Um homem de meia-idade que se envolveu numa briga com um vizinho da sua aldeia e acabou por cometer um pequeno delito. No interior do Paquistão, estas questões não se resolvem com a polícia, mas sim com recompensas s económicas ou com a entrega de uma filha como troca. Foi precisamente a filha, tal qual objeto, que o vizinho lhe pediu com compensação. Se para muitos pais essa seria uma troca normal, para Shakeel era algo que lhe “partia o coração”. Optou por dar todas as suas terras e manter a filha junto à família, mesmo que isso significasse um longo período de pobreza. Quanto à menina, que hoje é uma adolescente, está a estudar com o intuito de um dia conseguir ser juíza e castigar os casos de venda e troca de meninas.

Estas são apenas duas das muitas histórias que Samar Minallah Khan se tem dedicado a filmar e partilhar. Dois heróis nas vidas das mulheres das suas famílias. Em plena entrada no mês de todas as férias (incluindo as minhas, que só volto em à escrita d’A Vida de Saltos Altos em setembro), proponho-vos que aproveitem o tempo livre para espreitar o fabuloso trabalho desta mulher e conhecer as restantes.

Tal como tantas vezes tenho dito nos últimos sete anos, desde que este blogue foi criado, viver a vida de saltos altos não é uma questão de tamanho do salto, mas sim de atitude. E Samar Minallah Khan tem-na de sobra. Boas férias a todos!