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Expresso

De empregada doméstica a escrava

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No início deste ano, Hong Kong foi abalada pela horrível história de Erwiana Sulistyaningsih. Uma jovem mulher de 23 anos que conseguiu escapar da casa onde durante vários meses foi escravizada e torturada, após ter deixado a sua vila na Indonésia com a promessa de um bom emprego como empregada doméstica. O caso milagrosamente chegou a tribunal e mexeu tanto com a opinião pública que nem a avultada riqueza da mulher de 44 anos que a tinha contratado e torturado a salvou da prisão. Seis anos atrás das grades foi mesmo assim uma sentença leve, mas o caso serviu de exemplo. A história de Erwiana era apenas a ponta do icebergue dos múltiplos abusos perpetuados empregadas domésticas na Ásia e Médio Oriente.

Quatro meses depois desta história, e para que o assunto não caia em esquecimento, chega agora a Hong Kong a exposição “Behind Closed Doors”, do reconhecido fotógrafo Steve McCurry. Este projeto fotográfico duríssimo conta por imagens as histórias de diversas empregadas domésticas que sofreram as maiores atrocidades nas mãos dos seus empregadores.

Em comum todas tinham o sonho de uma vida melhor. Vinham de famílias carenciadas e abandonaram as suas aldeias e vilas com promessas de emprego bem remunerado nas grandes cidades de outros países que não os seus. Na sua maioria eram nepalesas, indonésias e filipinas e acabaram em países como Arábia Saudita, Malásia ou China. O caminho de todas elas culminou em verdadeiras situações de escravidão, expostas aos abusos mais horrendos que podemos imaginar.

Histórias de horror em imagens

Beth ficou cativa durante sete anos numa casa em Manila, a trabalhar de borla. Sempre que tentava perguntar pelo dinheiro a que tinha direito, levava sovas com um bastão até perder os sentidos. Siti foi trabalhar para uma casa em Omã, onde só tinha permissão para dormir quatro horas por dia no chão de uma casa-de-banho e para comer só tinha direito a pão, água e restos de vegetais. Pavitra também foi parar a Omã, a uma casa onde o patrão a violou repetidamente, acabando por engravidar. A esposa do agressor acusou-a de ter seduzido o marido e a empregada acabou por passar 5 meses na prisão. Anisa trabalhava há cinco dias numa casa em Hong Kong quando acordou sobressaltada com os cães dos donos a ladrar. Como não os conseguiu calar, a patroa agarrou-a pela mão e cortou-lhe um dedo com uma faca da cozinha. Sumasri tem várias cicatrizes pelo corpo todo resultantes de torturas com água a ferver por questionar as condições em que trabalhava.

Todas elas estavam isoladas, muitas vezes ilegais. Aos olhos da sociedade, praticamente invisíveis. Porque não fugiram logo? Imaginemos que estamos totalmente sozinhos num país desconhecido, sem termos qualquer tipo de noção sobre a quem recorrer, não temos um tostão no bolso, nem documentos, e que não só somos ameaçados de morte recorrentemente em caso de fuga, como também recorrentemente ouvimos que se o fizermos aquelas pessoas supostamente poderosas vão atrás da nossa família e os matam um a um. A chantagem psicológica é outro tipo de abuso a que ninguém deveria ser sujeito e que estas mulheres conhecem de cor.

Tornar visível a miséria e abusos que são perpetuados a empregadas domésticas entre quatro paredes é o objetivo desta exposição que já no fim do anos passado tinha dado que falar. Com o apoio das Nações Unidas, a tentativa é a de sensibilizar também os governos dos países envolvidos para terem uma ação mais forte e eficaz no que respeita à criação de leis que protejam este tipo de trabalhadoras. As provas estão à vista, em imagens que deixam qualquer um de nós com um nó na garganta.

Partilho hoje convosco algumas delas, mas se quiserem ver o trabalho completo comentado pelo próprio Steve McCurry, basta clicarem aqui.