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Expresso

A vida de saltos altos

As vítimas de Cosby: uma irmandade indesejável

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“Já não tenho nada a temer”. Esta é uma das frases que acompanha o fabuloso artigo que ontem fez capa da revista New York. Nela figuram 35 mulheres, com um elo em comum: todas foram violadas por Bill Cosby. Fotografas a preto e branco, sentadas numa cadeira, fazem parte das mais de 40 mulheres que nos últimos anos acusaram o ator de agressões sexuais, com recurso a sedativos. A completar esta imagem de grupo aparece ainda uma cadeira vazia, guardada para quem ainda não teve coragem de quebrar o silêncio quando aos atos execráveis do suposto “pai” da América. O título do artigo de 13 páginas diz tudo: “Uma irmandade indesejável”.

O artigo revela trechos das entrevistas feitas a cada uma destas 35 mulheres, onde revelam não só quão doloroso é serem vítimas de uma violação, como as reações que tiveram de enfrentar quando tentaram revelar o que tinha acontecido. Numa América conservadora dos anos 60, 70 e 80, onde falar de violação era totalmente tabu e Bill Cosby era um ícone nacional, apontado como o modelo dos “pais” dos norte-americanos, acusá-lo era uma pedrada no charco. Muitas foram silenciadas com dinheiro, outras souberam desde o primeiro minuto que seriam aniquiladas pelos advogados do famoso ator caso tentassem fazer justiça.

Neste artigo, as vítimas de Cosby decidiram quebrar o silêncio e juntar-se para contar a sua história, finalmente sem medos. É realmente o tipo de irmandade a que nenhuma mulher desejaria pertencer, mas num momento em que se tenta sensibilizar a América dos tempos de hoje para a realidade da violência sexual e dos seus complexos contornos, não podia fazer mais sentido. Não é – nem nunca deve ser - a vítima que deve ter vergonha de tal ato tão hediondo. E dar a cara é um ato de coragem contra uma sociedade que continua a desproteger as vítimas, uma forma fincar o pé contra esse silêncio podre que mina a vida de quem tem de viver com tal segredo.

São vítimas ou estão em busca de 15 minutos de fama?

No meio de tudo isto, os comentários deixados nas redes sociais são por si só sintomáticos do quão controverso este tema continua a ser. Por um lado há quem não perceba “por que é que não fizeram nada mais cedo”, por outro quem alegue que estas mulheres “estão só à procura de fama”. Minha gente, não me parece que isto seja procurar fama, mas sim procurar que se faça justiça. Aliás, dar a cara e admitir publicamente que se foi vítima de violação não deve ser de todo uma decisão fácil, quanto mais uma forma de aproveitamento em prol de reconhecimento público.

Não são lineares os motivos que mantêm um vítima no silencio, mas todos sabemos que em casos de violação ainda hoje a palavra da vítima é, regra geral, posta em causa. Há 30 ou 40 anos essa realidade era ainda muito pior, sem plataformas de apoio a quem recorrer. Depois há o sentimento de vergonha, de culpa, de querer esquecer que tal episódio traumático algum dia aconteceu. Isto, em casos onde o agressor é desconhecido. Agora tentemos imaginar quando o predador é uma figura adorada e admirada por um país inteiro. Conhecido como uma figura de cariz paternal, que ajuda jovem atores e é apontado por todos como um poço de virtudes. Quem é que iria acreditar nestas miúdas? Quantas delas tiveram de enfrentar da própria família e amigos frases como “tens a certeza?” ou “mas por que é que foste a casa dele?”. Como se o facto de terem ido por livre vontade a casa do agressor, acabando por serem sedadas e violadas tivesse, em parte, sido responsabilidade sua.

Estamos há dez a acompanhar este caso, daquilo que ainda são consideradas “supostas violações” perpetuadas por Cosby. Ao todos já 46 mulheres apresentaram queixa contra este violador em série, o próprio Presidente dos Estados Unidos já veio frisar que sexo sem consentimento e sob sedação é violação, mas o homem continua livre. A apregoar que as acusações “são irreais”. E sem qualquer tipo de punição, a não ser o facto de a sua carreira ter ficado nas ruas da amargura. É a isto que chama justiça?