Siga-nos

Perfil

Expresso

Mulheres a dar cartas em informática no Afeganistão? Sim, é possível

  • 333

Decorem este nome: Fereshteh Forough. É afegã, tem 30 anos e está a transformar-se num género de delicado furacão que provoca muitas comichões, por causa da sua luta em prol da educação e consequente independência das mulheres no Afeganistão. Num país onde 85% da população feminina nunca foi sequer à escola, esta mulher está decidida a tentar alterar o futuro de muitas das adolescentes ‘em idade de casar’ através de uma carreira em informática.

Quando pensamos no Afeganistão, muito dificilmente nos passa pela cabeça ver mulheres dedicadas ao universo da tecnologia. Convenhamos que mesmo por cá ainda não são assim tantas as senhoras que se dedicam a esta área, embora a tendência seja isso continuar a mudar, como tem acontecido nas últimas décadas. No que diz respeito às afegãs, essa realidade é uma miragem. Mas não é impossível.

Pelo menos é o que pensa Fereshteh Forough, uma ex-refugiada que voltou ao seu país depois da queda do regime talibã. Na manga trazia a possibilidade de acesso a um mestrado em Ciências Informáticas, em Berlim. Não hesitou, e quando regressou novamente ao Afeganistão tornou-se professora de informática. Hoje quer partilhar o seu conhecimento com outras mulheres e com isso tentar trazer-lhes um bocadinho de autonomia dentro de uma sociedade altamente conservadora e patriarcal.

A Internet é uma “coisa do Diabo”, dizem eles

Fereshteh criou o projeto Code to Inspire, um programa de ensino especializado com a duração de um ano, dedicado tanto a adolescentes sem qualquer tipo de formação, como a jovens mulheres já com alguma prática. “A educação é a chave para o poder, emprego e independência”, explica a CEO do projeto. “Muitos homens no Afeganistão receiam que, através da educação, as mulheres tenham mais meios para exigir igualdade de direitos. Além disso, para muitos a ideia de uma mulher mexer sequer com a Internet é ainda considerada uma coisa do diabo.”

Posto isto, é um ato arrojado tentar levar um projeto destes avante. Mas Fereshteh não desiste. Sabe que no seu país há mulheres que são ameaçadas de morte ou atacadas com ácido sulfúrico por trabalharem. O mesmo acontece a meninas que insistem em ir à escola. Aliás, já houve escolas a serem incendiadas para travar o acesso feminino à educação. Quando olhamos para o mercado de trabalho, o cenário é semelhante: apenas 15% da força laboral do país é garantida por mulheres. E mesmo as mulheres que recebem educação superior têm dificuldade em arranjar emprego: por um lado os homens são relutantes em confiar nas capacidades de uma mulher, por outro a sociedade não permite que estas se desloquem sozinhas, o que se torna num grande impedimento para uma vida laboral autónoma.

“Está na hora de mudarmos isto”, afirma Fereshteh, sem medos. “A minha ideia é misturar as nossas tradições e cultura com o acesso à tecnologia”. O ponto de partida foi a criação de um centro de formação em ambiente protegido, apenas para mulheres, onde as famílias não coloquem entraves de deixar as jovens. A segurança das mulheres que embarcam nesta aventura é essencial para as encorajar, uma vez que o grau de violência no país, em questões de discriminação de género é, como todos sabemos, gigante.

Para contornar o desemprego, Fereshteh está a criar uma rede de empregos online, com pagamento também online. Ou seja, as mulheres que tiram o curso podem depois trabalhar a partir do centro de formação, em ambiente controlado (sem mistura de homens), não pondo assim em causa as questões culturais.

“Quando as famílias perceberem que enviaram as filhas para este centro e não só elas aprenderam alguma coisa, como também passaram a ser um ganha-pão para a família, vão deixar de colocar problemas”, espera Fereshteh. No futuro anseia que o Afeganistão venha a ser palco de uma rede de startups geridas por mulheres empreendedoras, que dão cartas através da tecnologia. Ambicioso? Talvez. Mas, mais uma vez, não é impossível.

Os primeiros passos eram controversos mas já foram dados: um centro de formação onde meninas e mulheres a dão o seu melhor atrás de computadores, em busca de um futuro melhor.

Se quiserem saber um bocadinho mais sobre o projeto ou, quem sabe, contribuírem para que ele continue a ser viável, basta clicarem aqui.