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Expresso

A hedionda realidade das escravas do poder

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Abraçada a um coelho de peluche, Arely, hoje com 19 anos, e cicatrizes no pescoço de quando a tentaram estrangular, conta a sua história. É venezuelana e teve um infância pautada pela pobreza, situação que piorou com a morte do pai. Sem sustento para a família, a então adolescente foi vender empanadas para o mercado. Era loira e “tinha uma carinha de anjo”, todos os homens e rapazes a cobiçavam. Um dia, uma mulher “muito simpática” perguntou-lhe se ela nunca tinha pensado fazer carreira de modelo. Os seus olhos brilharam com a possibilidade. Levou-a a um cyber-café e mostrou-lhe um site de modelos onde, jurava, Arely também poderia figurar dada a sua beleza. A menina nunca sequer tinha mexido num computador e achou que aquilo só podia ser coisa séria. A tal senhora simpática tratou de tudo: passaporte, roupa para levar e parecer ainda mais bonita quando chegasse ao mundo da moda, bilhete de avião. “Depois pagas com o teu trabalho”. Arely acabaria numa rede de prostituição no México, sem documentos, desprotegida e escrava do sonho de uma vida melhor.

Esta é apenas uma das muitas histórias aterradoras que podem encontrar no fabuloso livro “Escravas do Poder”, um título Elsinore lançado recentemente em Portugal. Em bom português, a reconhecida autora Lydia Cacho é uma mulher com eles no sítio. Mexicana de nascença, estudou e viveu em Paris durante uma boa parte da sua vida e tem dedicado a sua carreira de jornalista à investigação da violência e exploração sexual das mulheres mundo. Já foi presa a torturada por ter revelado uma rede de pedofilia de empresários e políticos mexicanos, mas mesmo assim não cruza os braços. E este trabalho corajoso é o resultado das suas viagens pelo mundo durante cinco anos, em busca das rotas do tráfico humano.

Turquia, Japão, Reino Unido, Cambodja e México são apenas alguns dos países por onde passou em busca de respostas. Falou com vítimas que escaparam ao carrossel do tráfico, proxenetas, polícias, ex-políticos carrascos. Os relatos que ouviu e que agora partilha são verdadeiramente inquietantes e assustadores. As ligações tentaculares do tráfico humano parecem estender-se a um sem fim de indústrias, desde o turismo à pornografia, contrabando, venda de órgãos e terrorismo. Um tipo de crime que atravessa o mundo inteiro, totalmente impune, invisível aos cidadãos e ignorado por políticos que fingem não ver. Ou que dependem desta grande rede para manter a sua vida de ostentação.

“És puta e drogada. Achas que a polícia vai acreditar em ti ou em mim, um empresário de sucesso?”

A autora estima que mais de 80% das vítimas de tráfico humano são entregues à prostituição. Foi o que aconteceu Qui. Tinha doze anos quando o tio a levou da aldeia pobre onde vivia no interior do Cambodja, com a promessa casa e estudos na capital. A criança acabou por ser vendida a uma casa de prostituição vocacionada em meninas a partir dos sete anos. Ao chegar, uma senhora disse-lhe a frase que nunca irá esquecer: “É melhor portares-te bem e fazeres tudo o que te dizemos senão vais sofrer muito”. Deram-lhe vibradores como se fossem brinquedos, para se familiarizar com o que seria o seu futuro. E garantiram-lhe que se fizesse o que os homens pediam lhe davam brinquedos e comida. Foi assim o fim da sua infância.

“A pobreza é não só um campo fértil, como o motor de sementeira de escravas e escravos no mundo”, explica a autora. “A sociedade em geral tende a considerar o tráfico de meninas e mulheres como um reminiscência de outros tempos, julgando que a modernização e as forças do mercado global haveriam de erradicá-lo e que o abuso infantil nos obscuros meandros do mundo subdesenvolvido se dissiparia pelo simples contacto com a leis ocidentais. A investigação deste livro demonstra precisamente o contrário. O mundo é hoje testemunha de uma explosão de redes que roubam, compram e escravizam.”

Lydia Cacho aponta o dedo a mafiosos, políticos, militares, empresários, industriais, líderes religiosos, polícias, juízes, assassinos a soldo e homens comuns: todos fazem parte desta “enorme cadeia no mapa internacional do crime organizado”. “O laço vital que une estes elementos é a procura do prazer e o enriquecimento e poder que este proporciona. Enquanto uns criam o mercado da escravatura, outros protegem-no, promovem-no, alimentam-no. O tráfico de pessoas está documentado em 175 nações.”.

Sem documentos, dinheiro ou dignidade, muitas destas mulheres e meninas ficam presas no novelo de lã das ameaças. Quando são pequenas não sabem como pedir ajuda nem têm coragem para fugir. Quando crescem são constantemente bombardeadas por ameaças de morte e frases como : “És puta e drogada. Achas que a polícia vai acreditar em ti ou em mim, um empresário de sucesso?”. E você, em quem é que acreditaria?

Aproveitem as férias e leiam este livro. Vale mesmo muito a pena.