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Expresso

“És nojenta”, disseram-lhe

Ao longo dos últimos meses a blogger de beleza Em Ford leu de tudo nos comentários deixados nas suas redes sociais. Frases como “És nojenta” ou “nem consigo olhar para ti” misturaram-se com “és tão linda”, “és perfeita” e ainda “és uma dissimulada”. Tanta controvérsia porquê? Por causa do seu acne. Sim, isso mesmo, acne.

Resumindo, Em Ford – autora do projeto My Pale Skin - acha que um blogue de beleza não deve servir apenas para dar dicas de batons ou modelos de vestidos, portanto decidiu lançar-se num experiência que culminaria com uma dissecação das reações à questão da imagem corporal no universo das redes sociais. Como ponto de partida, Em Ford decidiu então contrariar as imagens que habitualmente partilhava de si mesma, bem maquilhada e com postura de diva de revista, e optou por partilhar a sua realidade por trás da base e do rímel. Em vídeos e fotografias mostrou ao mundo como conseguia disfarçar o acne fortíssimo com que teve de aprender a lidar na vida adulta. O resultado foi atroz.

A volatilidade dos comentários que lhe deixaram não me surpreende, mas dão que pensar e merecem reflexão, principalmente quando caminhamos para um futuro onde as gerações vivem atrás dos telemóveis. Quando Em partilhava fotos e vídeos maquilhada, os comentadores diziam que era linda, perfeita, a mais bonita de sempre. Quando mostrava a sua cara sem maquilhagem e com as borbulhas provocadas pelo acne, passava a ser nojenta, abominável. Quando mostrou que conseguia disfarçar o acne com uma maquilhagem exímia houve ainda quem dissesse que ela era uma fraude, uma vergonha para as mulheres por disfarçar a sua essência. Enfim, um chorrilho de ofensas baseadas numa realidade: no que toca à beleza, nos tempos de hoje nada parece ser suficiente. A noção base do que é ser belo ou feio está totalmente desvirtuada e o anonimato da Internet é o palco perfeito para se vomitarem frustrações de forma incólume, bem ao género dos bullies.

O bullying está no meio de nós

No fim desta experiência, Em Ford produziu um vídeo que se tornou viral e que mostra precisamente esse contraste de comentários e a forma totalmente irracional e desumanizada com que as pessoas reagem nas redes sociais. “Quis fazer um filme que revelasse como as redes sociais conseguem passar expectativas irrealistas tanto aos homens como às mulheres. Um dos desafios dos tempos de hoje é que, enquanto sociedade, estamos tão habituados a imagens de falsa perfeição e a compararmo-nos com ideais de beleza tão irreais que às tantas nos esquecemos do mais importante: à sua maneira, cada pessoa é bonita”, explica a blogger. Por mais que possa parecer uma frase batida, tudo se resume a isso.

Não são as borbulhas que alguém tem na cara que definem uma pessoa. Nem tão pouco a maquilhagem que ela usa. Ofensas deste calibre, motivadas por borbulhadas e maquilhagem, são de uma atitude tão pequenina que me provocam vergonha alheia. Que até se desculpe os miúdos por, no auge da brutalidade da sua ainda parca consciência, não terem noção de quão nefastas podem ser a longo prazo as ofensas que fazemos aos outros, muito bem. É tolerável, mas cabe-nos a nós adultos explicarmos que é errado e educá-los no sentido inverso. Mas sermos nós, adultos à partida conscientes, os primeiros a descarregarmos as nossas frustrações pessoais em formato de ofensa – seja a quem conhecemos, como a quem nem sequer conhecemos – é grave.

O bullying não acontece apenas nas escolas, nem é um problema restrito das crianças e dos adolescentes. O exemplo começa em casa. Na mesma casa onde muitos destes adultos se divertem atrás de um computador a chamar “nojenta” a uma mulher por causa do seu acne.