Siga-nos

Perfil

Expresso

Se existem heróis, este homem é um deles

  • 333

Channel 4

Chama-se Khaleel al-Dakhi, é advogado e nasceu no Curdistão iraquiano. No verão passado, foi um dos muitos yazidi vítimas de tentativa de genocídio por parte do Estado Islâmico, durante o cerco ao monte Sinjar. Sobreviveu, mas tal como muitos dos homens daquela minoria religiosa, assistiu ao rapto das mulheres que o rodeavam. Mais de três mil mulheres e meninas foram levadas pelo Estado Islâmico e trazê-las de volta parecia então uma tarefa impossível. Mas Khaleel não cruzou os braços: graças a ele, 530 já regressaram para os braços e segurança das suas famílias.

Para quem não está muito familiarizado com estes nomes, os yazidi são uma minoria religiosa, considerada pela Estado Islâmico como heréticos e adoradores do diabo. Escusado será então dizer que, para estes extremistas islâmicos, as mulheres e meninas raptadas nada valem. São vistas como objetos. E quando as humanizam, é para as considerarem dignas de castigo por tais pecados.

Graças ao apoio aéreo internacional, no ano passado os combatentes curdos romperam o cerco no monte Sinjar, uma derrota histórica em todo esta cavalgada do Estado islâmico pelo poder. Mas e depois? Depois pouco ou nada foi feito para salvar as pessoas raptadas. No fim de setembro de 2014, depois de ouvir os relatos hediondos das primeiras que conseguiram escapar pelos seus próprios pés, Khaleel decidiu que aquelas mais de três mil mulheres e crianças não podiam continuar a ser deixadas à sua sorte. E começou a traçar um plano.

“As maioria destas mulheres e meninas são violadas. Batem-lhes, violam-nas  em grupo. Obrigam-nas a casar com vários homens, roubam-lhes os seus filhos, vendem-nas nos mercados ou oferecem-nas uns aos outros como se fossem objetos”, conta Khaleel. “As que tentam resistir são mortas ou torturadas”. A idade não interessa: esta barbárie tanto acontece a mulheres de 40 anos, como a adolescentes de 16 ou crianças de oito.

Channel 4

Mais de 100 agentes infiltrados arriscam a vida por estas mulheres

Com a ajuda do reconhecimento do terreno destas mulheres coragem, que preferiram arriscar tudo e fugir do que continuar a viver em tal terror, Khaleel começou a tentar fazer incursões a território controlado pelo Estado Islâmico. Em menos de um ano conseguiu criar uma rede de mais de 100 agentes infiltrados nas barbas do inimigo, com identificações falsas. Uma vez que muitas das mulheres raptadas vivem nas casas de soldados, fechadas a sete chaves durante o dia, sozinhas, os agentes aproveitam essas alturas para atuar.

Primeiro estudam pormenorizamente as rotinas daquela localização e só quando acham que é seguro é que as retiram da casa e levam para um abrigo, ainda dentro do território inimigo. Os perigos que todos este homens – heróis! - passam no meio deste processo são inimagináveis. Todos nós já lemos ou vimos as barbaridades que aqueles terroristas são capazes de fazer. Mas o resultado parece fazê-los esquecer tudo isso. “Claro que sei que corro perigo de vida, mas alguém tem de salvar estas mulheres e meninas”, diz Khaleel. É preciso dizer mais alguma coisa?

A história de Khaleel pode ser lida no site do britânico The Telegraph ou vista no Channel 4 (ver vídeo em baixo), que esta quarta-feira vai emitir uma grande reportagem sobre o tema. Um homem que decidiu dar a cara não só para sensibilizar forças maiores que possam ajudar nesta causa, mas também para alertar as muitas jovens que têm partido de Inglaterra para se alistarem no Estado Islâmico. “Essas mulheres que planeiam sair do Reino Unido e juntar-se voluntariamente ao Estado Islâmico deviam conversar com as mulheres de Sinjar e ouvir como é a vida debaixo das ordens destes terroristas”, afirma Khaleel. “Talvez elas não acreditem em mim, em ti ou no que o seu governo lhes diz. Mas se falassem olhos nos olhos com estas mulheres, então sim, iriam acreditar no que as espera”.

Khaleel sabe o que espera estas mulheres do outro lado. Por isso, organiza-lhes também a sua reintegração de volta a casa. Não só devolve-as às famílias, como tem também já articulada uma rede de apoio psicológico e médico, principalmente ao nível ginecológico. Os danos físicos das brutalidades a que foram submetidas muitas vezes são irreversíveis. Uma a uma, visita-as repetidamente para se sentirem apoiadas.

Tudo isto pensado por um único homem, seguido por mais cerca de 100 corajosos que preferem arriscar a vida do que cruzar os braços. Se um homem, com uma equipa totalmente improvisada, conseguiu salvar 530 mulheres em dez meses, quantas poderiam já ter sido salvas se houvesse uma ação internacional concertada neste sentido? No que diz respeito à defesa dos direitos humanos e à proteção de vítimas de guerra, não há globalização de nos valha. Não basta sermos Charlie durante umas horas, é preciso sermos muito mais.