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Expresso

Chama-se Emma e pôs as redes sociais a falar sobre violência doméstica

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“O que acontece uma vez, volta a acontecer. Ao contar a minha história pretendo sensibilizar algumas mulheres e dar-lhes coragem. E espero que quem conhece alguém que esteja nesta situação partilhe com ela este vídeo e a ajude também”. Palavras de Emma Murphy, uma mulher irlandesa, de 26 anos, mãe de dois filhos e repetidamente vítima de violência doméstica. Ao fim de um ano e meio de maus tratos físicos e psicológicos, decidiu romper o ciclo vicioso e refugiou-se em casa de familiares. Com um olho negro e muitas lágrimas, decidiu partilhar com o mundo a sua história.  Para mostrar a outras mulheres que quem deve sentir vergonha é o agressor e não a vítima. 

Todos sabemos que medo e a vergonha leva a que muitas das vítimas de violência doméstica perpetuem a situação sem algum dia pedir a ajuda. O jogo psicológico feito pelo agressor é algo que Emma Murphy, autora do vídeo que tem dado que falar nas redes sociais nas últimas 48h, conhece bem. “Ser psicologicamente torturada e levada a pensar que somos paranoicas é algo que nenhum homem deveria fazer a uma mulher. Mesmo que aconteça uma única vez, bater é inaceitável. Mas fazerem-nos acreditar que a culpa é nossa e que isso torna a agressão aceitável, é ainda pior.” 

Emma Murphy, instrutora de fitness, estava casada com aquele que julgava ser o “homem da sua vida”. Com ele teve dois filhos e viveu “momentos muito felizes”, mas também “altos e baixos, como em qualquer relação”. Contudo, as traições era, algo que Emma não podia tolerar. O marido negava constantemente, e invertia a conversa levando-a a acreditar que estava tudo na sua “cabeça insegura” e que a base de todos os seus problemas familiares estava nessa mesma insegurança. Emma invariavelmente ficava a sentir-se culpada e deixava de o questionar. Até à próxima vez em que algo não batia certo. 

Foi então que violência física se juntou à psicológica. Ela questionava-o, ele batia-lhe. Discussões que acabavam com empurrões, depois com murros e até pontapés. Neste vídeo Emma aparece com uma olho negro, uma marca talvez menos dolorosa do que as feridas psicológicas que resultaram desta relação pautada por abusos. Depois de “muito pensar sobre se deveria ou não filmar este relato”, decidiu que o devia partilhar. “Por mim, pelas minhas crianças, pelas mulheres que podem precisar de ser sensibilizadas para este problema e perceberem que não são as únicas a quem isto acontece.” 

“O que é que as pessoas vão pensar?”
Seja na Irlanda, seja em Portugal, a violência doméstica continua a ser um dos gigantes problemas sociais das nossas sociedades, à partida, evoluídas. Que afeta tantos mulheres, como homens, mas incontornavelmente com maior incidência no sexo feminino. Por cá, só em 2014 a UMAR contabilizou 31 mulheres mortas em situações de violência doméstica. E no maior inquérito europeu sobre o tema - realizado a 42 mil mulheres - concluiu-se que nos 12 meses anteriores 13 milhões de mulheres na Europa tinham sido agredidas fisicamente e 3,7 milhões sexualmente dentro de relações. 

Estas situações estão realmente no meio de nós. Lembro-me do caso de uma grande amiga cujo marido fazia uso da força para fazer valer a sua opinião, ter ouvido da sogra a seguinte frase: “Minha querida, isso é normal. Eles são homens, não podemos levar a mal. Já o meu me fazia o mesmo e eu nunca me divorciei. O que iriam as pessoas ficar a pensar?”. A separação acabou por acontecer e o caso chegou mesmo a tribunal. Mas tal como esta sogra, há inúmeros familiares que incitam à vergonha social. As eternas aparências continuam a falar mais alto em muitos casos. E esta é outra tendência que deverá ser travada veementemente. 

Não é a vítima que deve ter vergonha. É certo que é ela que, à partida, deve arranjar força para sair da bola de neve que a violência doméstica consegue ser. Mas também nos cabe a nós estar atentos a quem nos rodeia e não desistir de tentar ajudar alguém que está a ser psicologicamente violentado, ao ponto de não conseguir agir. Por mais que a atitude nos pareça irracional. E é isto que faz com que a partilha de Emma seja, no mínimo, pertinente e corajosa. 

“Não há nada de saudável na violência e levantar a mão a uma mulher nunca é solução.”, frisa esta mulher no vídeo, admitindo que também ela demorou a ultrapassar a vergonha. “Procurem ajuda nos amigos e família, nas pessoas que vos amam e se preocupam convosco. Se não o fizerem por vocês, façam-no pelos vossos filhos. Nenhuma criança devia ser exposta a estas situações”. Nem mais.