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Expresso

Meryl Streep enviou 535 cartas dignas de aplauso

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D.R.

Há que adorar a garra de Mery Streep, que promete voltar a fazer furor na pele da grande Emmeline Pankhurst, em “Suffragette”. Mas enquanto o filme sobre aquela que foi a grande impulsionadora do direito ao voto das mulheres no Reino Unido não chega, a atriz dá cartas fora do grande ecrã, no que toca à luta pela igualdade de género. Depois da reação inesquecível que teve aquando do discurso de Patricia Arquete, durante a entrega dos óscares, Meryl acaba de surpreender tudo e todos com uma carta.

Uma não, 535. Enviadas individualmente a cada um dos membros do Congresso dos Estados Unidos. Embora não seja a primeira vez que manifesta a sua indignação pela discriminação de género no seu país, a forma criativa com que a atriz continua a chamar à atenção para o tema é digna de aplauso. Desta feita o que está em causa é a consagração de Equal Rights Amendment (Emenda para a Igualdade de Direitos), que deveria proibir a discriminação de meninas e mulheres aos olhos da lei.

Redigida em 1920, pouco tempo depois de as mulheres de alguns estados americanos terem começado a poder votar, foi levada ao Congresso em 1972 mas acabou por nunca conseguir ser ratificada de forma a entrar na Constituição. Um assunto que foi literalmente posto na prateleira em 1982, embora uma boa parte da população americana ache que ficou concluído. Meryl Streep sabe que não e não desiste de tentar mexer forças para a sua finalização.

”Escrevo-vos para se indignarem pela igualdade – pela vossa mãe, a vossa filha, a vossa irmã, a vossa esposa, por vocês próprios – apoiando ativamente a Emenda para a Igualde de Direitos. A ERA não é um assunto só de mulheres. Irá significar algo de muito benéfico para toda a humanidade”, palavras da atriz na carta.

Os números da disparidade salarial
Junto à mesma, Meryl Streep enviou também uma cópia do livro de Jessica Neurwirth “Equal Means Equal”. E acrescentou a chamada atenção para a realidade dos tempos de hoje: “Há atualmente toda uma geração de meninas e mulheres a discutir as questões da igualdade: nos salários, na proteção em caso de assédio, nos direitos.”

Não é toa que o tema da igualdade salarial é referida veementemente nesta carta: estudos recentes demonstram que nos Estados Unidos as mulheres ganham o equivalente a 78,3% do que recebem os homens. E que a este ritmo de evolução salarial, a disparidade de rendimento entre os géneros só será eliminada nos em 2058.

Já agora, por cá a realidade – segundo os dados apresentados pelo Eurostat, em maio – é esta: as mulheres ganham menos 13% do que os homens. No que toca a disparidade salarial entre homens e mulheres, entre 2008 e 2013, Portugal registou o maior aumento da União Europeia, 3,8 pontos. Com 13% no total, mesmo assim ficamos abaixo da média europeia, atualmente nos 16,4%. Uma vergonha.

À falta de uma Meryl Streep para relembrar isto às supostas ‘altas instâncias’, cabe-nos a nós – homens e mulheres – ir relembrando diariamente que este tipo de disparidade não pode, nem deve, fazer sentido. Não é o género que nos define enquanto elementos de uma sociedade.