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Expresso

De meninas de escola a máquinas de matar

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Miriam tem apenas 17 anos mas carrega no olhar todo o peso do terror pelo qual já passou. Faz parte das mais de duas mil mulheres e meninas até agora raptadas pelo Boko Haram e ontem, num programa impressionante emitido pela BBC, contou ao mundo o que se passa dentro das quatro paredes dos cativeiros. Tal como com tantas outras centenas de mulheres brutalizadas nestes raptos, a Miriam foi dado a escolher: ou aceitava casar com um dos soldados do grupo terrorista ou seria morta. A adolescente não acreditou e recusou-se a casar com um estranho. Então trouxerem um homem cristão para a sua frente e degolaram-no. “É isto que acontece a qualquer rapariga que se recusar a casar”, disseram-lhe.  

Miriam optou por viver. Casou à força, foi violada repetidamente pelo suposto marido, engravidou e viu os maiores horrores acontecerem à frente dos seus olhos. Um dia conseguiu fugir e hoje vive num abrigo para vítimas do Boko Haram. Mas o que é que acontece a quem não consegue fugir? Como se vive entre terroristas? O que aconteceu às 276 meninas que foram raptadas da escola de Chibok, em abril de 2014? Estão vivas? Num relato duríssimo, acompanhado por o de outra mulher de 60 anos que também conseguiu escapar, Miriam deu essas respostas à BBC. E a realidade é – poderia não ser? – um murro no estômago. 

Foram torturadas, violadas, expostas às mais hediondas brutalidades. Depois foram obrigadas a converter-se ao islamismo (ainda há umas semanas o Boko Haram divulgou um vídeo com 130 destas meninas a recitarem o Corão de forma perfeita), sofreram uma lavagem cerebral e, quer quisessem quer não, foram obrigadas a abraçar a causa.  

Hoje, uma boa parte dessas meninas inocentes que foram raptadas naquela escola de Chibok transformaram-se em militantes do Boko Haram. Andam de arma na mão, torturam as mais recentes raptadas que se recusam a converter-se ao islamismo, matam prisioneiros cristãos às ordens dos seus maridos. 

“A culpa não é delas”
Os relatos de Miriam são corroborados pela Amnistia Internacional: as prisioneiras do Boko Haram estão a ser treinadas para combater. Ana, de 60 anos, outra das mulheres que conseguiu escapar ao grupo terrorista, não consegue esquecer as imagens daquelas meninas. “Aquelas com quem me cruzei pareciam já não ter coração. Uma vez vi-as junto de um grupo de homens deitados no chão, de mãos atadas, trazidos pelos soldados. Um a um, foram elas que os degolaram.” 

Embora Anna não consiga tirar estas imagens horrendas da sua cabeça, não as culpa pelos atos de violência extrema. “Não é culpa delas, elas são forçadas a fazê-lo. Toda a gente que se cruzar com as meninas de Chibok deverá sentir pena delas. Era tudo o que eu conseguia sentir quando assistia a esses momentos.” 

E é isso que ninguém pode esquecer. Estas meninas mulheres foram transformadas em verdadeiras máquinas de matar. Degolam homens, flagelam mulheres impiedosamente. Mas continuam a ser vítimas. Nós, comunidade internacional, fomos incapazes de as salvar de tal destino. Falhámos. E continuamos a falhar diariamente a 

ao não intervir, ao não darmos ajuda concreta para proteger as vidas das centenas de inocentes que continuam a ser apanhados nas malhas do extremismo, sem terem por onde escapar. O exército nigeriano nitidamente não o consegue fazer sozinho.