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Expresso

E como seria se os hooligans fossem à bola com a mãe?

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Se há pessoa por quem tenho imenso respeitinho é a minha mãe. E sei que vai ser sempre assim. Foi graças a ela e aos seus raspanetes sábios, dados na altura certa, que me tornei uma pessoa melhor enquanto mulher, disso não tenho dúvidas. E embora me arrelie vezes sem fim com os nossos choques de pessoas adultas, obviamente que se há alguém com quem eu nunca passarei para lá da linhas do limite do aceitável é com ela. 

Isto é assim para mim e para tantos outros milhões de adultos mundo fora, incluindo muitos daqueles adeptos de futebol que se transformam em verdadeiros trogloditas no estádio e que acabam à pancada por dá cá aquela palha. Será que fariam o mesmo se estivessem perante as suas mães?

Foi com esta dúvida na cabeça que este ano surgiu uma campanha no Brasil intitulada “Mães Segurança”. Em modo projeto piloto, dezenas de mães de membros problemáticos de claques de futebol foram convocadas e treinadas para vestir o colete de segurança do estádio num dos jogos anuais mais quentes do Sport Club Recife. O mote da iniciativa visava precisamente a paz no futebol, que nas partidas inflamadas contra o Náutico de Pernambuco terminavam sempre com desacatos altamente agressivos.

“Hoje quem faz a segurança são as mães dos torcedores, respeite”
Sem que os filhos soubessem que tal iria acontecer, estas dezenas de mães foram treinadas e preparadas com a ajuda de profissionais de segurança. A surpresa para todos chegou minutos antes de o jogo começar: um enorme cartaz no relvado avisava “Hoje quem faz a segurança são as mães dos torcedores, respeite”.

De colete cor de laranja onde se lia “segurança mãe”, mãos atrás das costas e ar reprovador ao mínimo sinal de exagero no comportamento, as senhoras posicionaram-se estrategicamente junto às claques. E se inicialmente os mais rufiões nem queriam acreditar que iriam ver a partida sob o olhar atento da própria mãe, no fim o resultado acabou por ser altamente emocional. Fãs abraçados às mães, a saltarem e a cantar juntos, e muitas lágrimas de respeito e alegria.

Como diria o responsável da Ogilvy Brasil à imprensa brasileira na altura do jogo: "A nossa ideia foi conscientizar os torcedores mais fanáticos e ajudar, de alguma forma, a trazer mais paz para o futebol. Afinal de contas, ninguém quer brigar na frente de uma mãe, ainda mais da sua". 

Se o números apresentados forem mesmo verdadeiros, tinha toda a razão. No fim da partida, o resultado para lá do marcador foi revelador do sucesso: zero desacatos graves registados, zeros detidos.

A campanha teve um impacto internacional tão grande que, espero eu, talvez a iniciativa venha a repetir-se noutras cidades, noutros jogos, com outros adeptos. Para mostrar que futebol não tem, nem deve, obrigatoriamente, ser palco de espetáculos tristes com a violência enquanto denominador comum. 

Manter a calma e fazer a festa pode ser tão simples quanto foi nesta partida em Recife. A campanha aconteceu no primeiro trimestre deste ano, mas só ontem me cruzei com este vídeo. Espreitem-no e digam lá se, desta vez, não é mesmo caso para se dizer sem reticências: "Foi bonita a festa, pá".