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Expresso

Queimou-se um gato vivo em Portugal. Afinal, quem são os animais?

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Numa semana em muitos se revoltaram com o festival da China onde se come carne de cão, em Portugal surgem nas redes sociais as imagens de uma festa popular onde um gato é queimado vivo. Sim, em Portugal, em pleno século XXI. O vídeo da Queima do Gato feita em Mourão, Vila Flor, surgiu no Youtube, mas não em forma de denúncia: as imagens mostravam, em tom de festa e orgulho, como esta tradição se mantém viva e continua a ser celebrada por centenas de pessoas, incluindo crianças. Os mesmos pais que deveriam ser os primeiros a ensinar aos miúdos que tratar mal um animal é errado, são aqueles que os levam a ver esta morte cruel em dia de festa.

Nem deveria ser preciso dizer que há algo de muito, mesmo muito errado em aprisionar um gato no topo de um poste revestido de palha, com o intuito de o imolar. Fazer disto um momento de júbilo numa festa popular é, no mínimo, voltarmos ao Portugal dos tempos medievais. Mas é bom que todos tenhamos em mente que já não estamos nesses tempos e que a evolução nos leva, consequentemente, também a exigir maior consciência nos nossos atos. E este, simplesmente, não é aceitável. 

No vídeo (cuja versão original foi removida pelos autores, mas que continua a circular), o gato salta do pote e foge a correr, envolto por chamas. Para os foliões, a piada é mesmo essa: a ideia não é o gato morrer, é apenas apanhar um susto valente e ter de saltar de uma altura que – convenhamos – põe em risco uma das sete vidas do animal.  Toda a gente aplaude quando isso acontece. E riem-se do pânico do gato. A sério, tão divertido que isto é, meus senhores. 

A tradição não pode ser desculpa 
Sei que vivemos num país onde os direitos dos animais ainda são uma miragem. Onde para muita gente a vida e o sofrimento de um cão ou de um gato pouco valem. Mas usar a palavra ‘tradição’ como justificação para tal selvajaria não pode continuar a servir de eterna desculpa para a essência sádica dos seres humanos. 

Já é suficientemente mau que se continue a proteger a barbárie das touradas. Desculpem-me os aficionados, mas não me conseguem convencer de que soltar um touro assustado (é tão mais fácil dizer que o touro está enraivecido, não é?) numa arena para centenas de pessoas se regozijarem com o suposto espetáculo do seu sofrimento ainda seja aceitável. Bem ditas cornadas que, volta não volta, são dadas pelos bichos. Mas permitir que tradições como a queima do gato voltem a estar em voga, sem que ninguém seja penalizado, é retroceder no tempo.  

Acho importantíssimo que nos orgulhemos das nossas tradições e que protejamos aquelas que fazem parte da nossa identidade cultural. Mas há inúmeras tradições que são condenáveis – será que alguém ainda considera normal, por exemplo, a excisão de meninas? Mas olhem que também é ‘tradição’... -  e que com a evolução dos tempos e das sociedades deixam de fazer sentido. A tortura e o sacrifício animal é uma delas. Sinceramente, nem sequer consigo perceber como é que andamos em torno desta discussão.