Siga-nos

Perfil

Expresso

Chamam-se Ama-San, são japonesas e inacreditáveis

  • 333

Cláudia Varejão

Lembro-me de há uns tempos ter encontrado no YouTube um excerto de um vídeo que me impressionou imenso. As protagonistas eram senhoras japonesas de meia idade que, para meu grande espanto, se dedicavam ao mergulho, muitas vezes em distâncias profundas. Uma das suas grandes particularidades: faziam-no sem auxílio de botija de oxigénio. A motivação: apanhar preciosidades do mar, sem nunca perder o respeito pela força da natureza.

Chamam-lhes as Ama-San. A sua capacidade física de resistência às intempéries do mar é verdadeiramente impressionante, numa tradição já dura há mais de dois mil anos. Altamente respeitadas por uns, mas muitas vezes incompreendidas por outros, são elas as grandes responsáveis pela colheita de algas, ouriços, abalones, ostras e respetivas pérolas no fundo do mar.

Fazem-no num género de “corpo a corpo” com o mar, como se lhe prestassem também reverência. Sem ferramentas que as ajudem a arrancar as preciosidades das rochas, nem auxílio de botijas de ar. Levam o corpo ao limite e a maioria do que recolhem, fazem-no com as mãos. Chegam a atingir os 20 metros de profundidade e a estar dois minutos sem respirar. Algumas têm mais de setenta anos, mas isso não as impede de continuar a fazê-lo. Invertendo a tendência da sua sociedade, são elas quem garantem o sustento do marido e dos filhos.

Reverenciadas no Japão há muitos séculos, são mulheres robustas, mas ao mesmo tempo delicadas, com um alto sentido de camaradagem. A amizade que as une tem fama de ser inquebrável. Todos os anos, em Shirahama há um festival em sua honra, pelo seu sentido de coragem e sacrifício, mas são as primeiras a não consideram a atividade perigosa. Primeiro que tudo, por mais anos que possam ter, consideram-se mulheres saudáveis. Depois, raramente mergulham sozinhas. Aliás, o trabalho de equipa – embora individual quando toca à colheita e à auto-superação debaixo de água -  é regra para manter a segurança.

Cláudia Varejão

As Ama-San estão em Portugal

Vivem como que numa coreografia harmónica, em que o respeito pela música a cada passo que se dá fizesse parte da sua sobrevivência. São pragmáticas, mas acreditam que os excessos estragam os oceanos e que se esta fosse uma atividade de homens - que conseguem afastar rochas e tirar todas as conchas de uma vez -  já não haveria nenhuma. Assim mantêm o equilíbrio com a natureza. E com elas próprias. Na sua perspectiva, mergulhar e conseguir trazer uma só concha é uma grande vitória.

Ontem descobri que esta semana inaugura uma exposição fotográfica no Museu do Oriente precisamente sobre estas mulheres. Um trabalho da fotógrafa portuguesa Cláudia Varejão, que realizou duas viagens ao Japão para descobrir os segredos da vida das Ama-San da Península de Ise-Shima. Na exposição, que inaugura dia 25, pelas 18h, os rostos e os locais são registados como notas pessoais da autora. E em breve deverá ser lançado também um documentário baseado nestas duas viagens. Se gostavam de conhecer um bocadinho mais sobre o universo destas mulheres extraordinárias, espreitem este projeto. Eu irei lá passar com toda a certeza.