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Expresso

Casal católico ameaça divorciar-se contra casamento gay

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A saga da legalização do casamento gay na Austrália continua a dar que falar. Depois de o primeiro-ministro do país ter recusado seguir o exemplo irlandês, preferindo levar esta decisão às mãos do Parlamento em vez de realizar um referendo, é chegada a vez de uma das mais idiotas manifestações de desagrado em relação ao tema que já vi nos últimos tempos: um casal católico heterossexual ameaça divorciar-se como forma de protesto caso a mudança da lei avance.

Uma sondagem realizada em julho do ano passado tinha revelado que 72% dos australianos eram a favor do casamento gay. Mesmo assim, tudo aponta que a decisão não vá a referendo. Nick e Sarah Jensen  - casados há mais de dez anos - afirmam não ter qualquer intenção de se separar, mas estão dispostos a fazê-lo como forma de protesto contra a legalização do casamento gay caso este venha a ser aprovado pelo Parlamento. Porquê? Por causa de “uma questão de consciência” para com o real significado da “definição de casamento”. Não, isto não é brincadeira, este casalinho maravilha está mesmo a falar a sério.

Ora bem, dizem eles que o “casamento é uma ordem fundamental da criação”, ou seja, “é a união de um homem de uma mulher aos olhos de Deus” e “não uma criação dos humanos”. Assim sendo, mesmo no caso das pessoas que não são católicas, “qualquer casal é importante aos olhos de Deus”. Mas isso não inclui os gays, entenda-se. Supostamente estes não fazem parte da tal ordem da criação divina.

“Para com Deus não há acepção de pessoas”, certo?

Esta história é tão disparatada quanto grave. Demonstra quão longe o preconceito consegue ir e isso é algo que não pode ser encarado com leveza. Há quem já tenha criado um evento no Facebook de celebração deste divórcio, uma sátira que conta já com o apoio de mais de 40 mil pessoas. No entanto, uma vez que estes senhores têm parco sentido de humor e gostam de regras “by the book”, às tantas valia a pena relembrar-lhes algumas coisas importantes.

Primeiro, além da bíblia, podiam usar algum do seu tempo a ler a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que é válida para todos, sejam católicos ou não. Logo no primeiro artigo diz que “todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade”. Simples, certo? Outro artigo diz ainda que “a partir da idade núbil, o homem e a mulher têm o direito de casar e de constituir família, sem restrição alguma de raça, nacionalidade ou religião”. Mas ninguém diz em lado nenhum que o homem e a mulher têm de se casar um com o outro, certo?

Mas se parafrasear a bíblia for mais fácil, embora seja uma mulher pouco católica, assim de repente lembro-me logo daquele versículo que diz que “para com Deus não há acepção de pessoas” e do mandamento que invoca a ordem de “amar o próximo como a ti mesmo”. Não me parece que este senhores, por mais religiosos que sejam, estejam a cumprir a vontade do Deus católico com tal atitude.

Nick e Sarah, essa pequenez de espírito não vos fica bem. Se estão fartos um do outro e se querem divorciar, façam-no. Mas deixem-se de demagogias baratas e de usar a religião como arma de arremesso. A união pelas vias legais de duas pessoas que se amam deveria ser um direito, sem espaço sequer para discussões preconceituosas. A legalização do casamento gay já vem é tarde demais.