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Expresso

Tim Hunt, o Nobel chauvinista

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Como é que alguém à partida tão inteligente (foi distinguido com um Nobel, não foi?) pode fazer um comentário público tão idiota quanto o que o cientista Tim Hunt fez recentemente numa conferência na Coreia do Sul? É simplesmente imperdoável que aquilo que começou com a frase “deixem-me explicar o meu problema com as mulheres” tenha degenarado nestas três críticas absurdas à presença feminina no universo dos laboratórios: primeiro, as mulheres apaixonam-se por colegas de trabalho; segundo, os homens distraem-se e acabam por se apaixonar por elas também; terceiro, quando são criticadas elas tendem a chorar. Mais um bocadinho e acredito que Tim Hunt acabaria por dizer que também  concorda com a tal ideia do radical islâmico iraniano que há uns tempos apregoou que os terramotos acontecem porque há mulheres que não se vestem convenientemente.

Tim Hunt, hoje com 72 anos, já devia ter idade para ter juízo. Ou pelo menos respeito, não só pelas inúmeras colegas de profissão, como pelas mulheres em geral. Menos de 24 horas depois de ter feito tal comentário acabou por pedir desculpas e garantir que não queria ofender ninguém. Mas ofendeu. Já aqui falei diversas vezes das questões de discriminação de género em contexto laboral e este é apenas mais um exemplo claro de sexismo, mesmo num universo supostamente tão distinto quanto o da ciência.

Ainda há pouco tempo a própria UNESCO referia que nesta área a paridade está longe de ser alcançada e a verdade é que as mulheres não ocupam sequer 30% das posições dedicadas à investigação científica. São menos capazes? É porque choram mais que os homens? Convenhamos, até os jogadores de futebol masculino choram quando se sentem frustrados com uma derrota. Apaixonam-se? E os homens, não? Lembro-me também da eterna desculpa da questão da maternidade, apregoada, por exemplo, por grandes chefes que não querem ver mulheres nas suas cozinhas. “Ah, isto não é para mulheres. Elas têm filhos, não é compatível”, disse-me há menos de um ano um dos maiores nomes da nossa praça. Então e os homens, não têm filhos também?

Uma questão de género ou de capacidade e personalidade?

Se calhar está na altura de acabarem com este tipo argumentos idiotas porque não passam disso mesmo: idiotas. Mais do que homens ou mulheres, o universo laboral está cheio de pessoas. Com diferentes personalidades e capacidades distintas, dois factores que realmente devem ser levados em consideração. Na larga maioria dos casos, o género conta pouco para a equação.

Comentários como o de Tim Hunt são apenas um reflexo do que se passa na realidade de tantos contextos laborais para lá da ciência. Lá no fundo, aquela piadinha não era assim tão piada. Aliás, o facto de ele também ter dito publicamente que deveria haver laboratórios com equipadas separadas por géneros – e que tal voltarmos a banir as escolas mistas também, hein? -  é muito revelador da sua atitude. Ainda mais grave: uma atitude que vem de alguém que é tido como um exemplo profissional de excelência na sua área e que ao longo da carreira teve nas mãos o caminho de inúmeros homens e mulheres. Olhando para estes comentários, não é difícil imaginar a quem é que ele mais terá dificultado a vida.

Louvemos-lhe ao menos a honestidade quando, em tom de brincadeira, também disse que era um “porco chauvinista”. Outro exemplo de como as piadinhas de Tim Hunt têm um cunho de verdade.