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Expresso

Seria Bin Laden um romântico?

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Ontem, depois de ver e partilhar com quem me rodeia um dos documentos sobre a Al-Qaeda que foi desclassificado pela administração dos Estados Unidos, esta pergunta ficou no ar. E embora seja quase inquietante pensar neste líder terrorista como alguém potencialmente carinhoso, a verdade é que as palavras escritas pelo próprio a uma das suas mulheres levam a crer que tal seria bem possível.

 Em causa está uma carta escrita por Bin Laden em 2008 (bem antes do ataque em 2011 que o levaria à morte), dirigida à sua “querida e fiel esposa”. Nela o ex-líder da Al Qaeda pede desculpa pelos anos a que a obrigou a estar em cativeiro com o filhos, revelando ter consciência do stress que isso causou à família. Chama-lhe “menina dos meus olhos” e demonstra remorsos por não lhe ter dado todo o amor que ela merecia.

 Em 2008, Bin Laden jurava também amor eterno a esta mulher, prometendo não voltar a casar: “não encontrarei outra mulher como tu”. Mas caso tudo corresse mal, o terrorista deixava a esposa à vontade para seguir o seu caminho: “Se me matarem e quiseres regressar à tua família, tudo bem, mas tens de criar os meus filhos apropriadamente e ter cuidado com as más companhias que possam vir a ter, sobretudo na puberdade, e em especial as meninas”. Melhor, deixa ainda a esposa à vontade para voltar a casar, mas com uma condicionante: quando chegassem ao paraíso “entre os seus rios e riquezas” ela terá de escolher ser sua mulher para eternidade, uma vez que Alá só permite que se escolha um marido.

 Na mesma carta, Bin Laden pede “paciência” e “força” à mulher e reforça os seus sentimentos por ela: “Quero que saibas que preenches o meu coração de amor e de belas recordações. Cada vez que penso em ti os meus olhos enchem-se de lágrimas por ter-te longe.”

 Há algo de sinistro em entrar no lado emocional do homem mais procurado de sempre. E ainda mais sinistro é depararmo-nos com a realidade de que aquele que foi responsável por tamanhas atrocidades afinal, e à sua maneira, nutria amor pela companheira e pelos filhos como qualquer um de nós. Por momentos, ao ler esta carta, até é relativamente simples nutrir algum tipo de empatia por este homem que ceifou tantas vidas.

 Mas depois, entre cartas repletas de palavras românticas, surgem rascunhos e diretivas do líder terrorista encontradas no Paquistão que nos voltam a pôr os pés nos chão: ordenava Bin Laden que os Estados Unidos voltassem a ser alvo de “ataques grandiosos”. Sim, ele amava a sua família. Mas as famílias dos outros – fossem inimigos diretos ou inocentes que surgissem pelo caminho  - pouco lhe interessavam. A complexidade da mente humana tem destas coisas.